Por: Julinho. Admirador do protagonista. Compilador dos dados disponíveis e organizador das informações obtidas.
CAPÍTULO 0. Prefácio onde ocorre uma explicação cronológica referente às aventuras de Jorjão Amansa Brabo aqui relatadas.
Confesso que a ideia inicial era ambientar toda a narrativa na Salvador nos anos 60, e posso dizer que quase toda ela está. Depois de muito “brigar” contra este rigor pré-definido ocorreu o “relaxamento” e eventuais passagens, pouquíssimas aliás, trazem ambientes, fatos ou personagens, sejam reais ou criados sem qualquer vergonha ou prurido moral, com características dos anos 70 ou 80 da cidade. Mas, como dito, são muito poucos, o forte mesmo está nos anos 60 onde Salvador tinha aquela aura que provoca paixões inexplicáveis sem precisar que isso fosse apregoado todo o tempo como é hoje. Então: se você viveu delicie-se, relembre e corrija, se a memória traiçoeira fizer das dela e, se não viveu, converse com quem viveu isso. Mas faça isso ligeiro, senão nós acabaremos, como tudo o que é bom.
Pois as peripécias do herói desta narrativa aconteceram em:
Uma Salvador na qual a Lavagem do Bomfim começava às 7 h da manhã e às 10 h já havia acabado. As baianas com seus potes e flores, as bandinhas de música, os políticos e os burros puxando carroça (não tenho responsabilidade por eventuais injustiças devidas às inversões de papéis) e o povo acompanhando subiam juntos a Ladeira, espiados silenciosamente pelo Solar Marback (foto), situado na Baixa do Bonfim e sempre sério e fechado como até hoje. Lá em cima a lavagem acontecia e depois iam todos tratar da vida, inclusive os burros ou os políticos. Ficavam os vendedores de umbu, siriguela e caju; os capoeiristas, com Jorjão sempre se destacando, a jogar em rodas na parte alta, perto do coreto e do chafariz e a criançada do bairro a correr ladeira acima e abaixo por entre as barracas armadas até o fim da tarde quando a festa mudava de figura. Aí era batuque, samba, música de alto falante fanhoso, comida pesada e bebida, além do parque com roda gigante e barracas de jogos tentando tirar o dinheiro daqueles que, atirando argolas, esperavam ganhar as carteiras de cigarro das marcas Hollywood, Astória, Minister, Hilton, Consul e Continental. Gastavam mais comprando argolas do que os cigarros custavam.

Uma Salvador na qual era comum haver pessoas que passavam as férias de fim de ano em casas na longínqua localidade de Itapuã e ficavam 3 meses sem vir na “Bahia”. Eram os “veranistas” que quando voltavam matavam os outros de inveja com a cor que depois foi apelidada de bronzeado e hoje é demonizada de precisar exorcismo. Era uma coisa de se ver a arrumação de mala, caixa, saco, compra prá 3 meses, pais, mães, penca de filhos e os bichos da casa no taxi, pois quase ninguém tinha carro e a viagem até Itapuã maltratava, porquê passando a Casa Navio depois do Largo de Amaralina era estrada de mão única e de chão até chegar na Placa da Ford. O lugar da Casa Navio (foto)virou a Pituba e a placa deu origem à Placafor. E tinha que ser Aero Willys, Ford ou Chevrolet, ainda que fossem mais caros, porque os Volks, mais baratos, não cabiam tanta coisa e nem tinham o banco dianteiro do carona.

Uma Salvador na qual o jornal “A Tarde” ia para as bancas de tarde, fazendo jus ao nome, e o padrão dos respeitáveis pais de família era retornar após o trabalho com A Tarde debaixo do braço e um pacote de acarajés na mão, acarajés que só começavam a ser vendidos das 4 ou 5 da tarde em diante.
Uma Salvador na qual as famílias paralelas dos acima citados respeitáveis senhores pais de família, que sempre eram instaladas em bairros distantes da sua morada oficial, eram conhecidas por todos e comentadas à boca pequena nos bairros onde moravam a esposa e os filhos.
Uma Salvador na qual as famílias costumavam instalar bancos particulares, improvisados com tábuas e barrotes de madeira, ao longo das calçadas no trecho entre as Mercês e o Largo de São Bento para “apreciarem o carnaval” sentadas, e quem quiser que sentasse no banco de outro alguém. Tinha sempre um daqueles respeitáveis senhores pais de família disposto a fazer valer a “moral e os bons costumes”. Hoje tais bancos seriam armas excelentes para agressões mútuas entre os “brincantes”.
Uma Salvador provinciana e preconceituosa ao extremo que se referia aos moradores do bairro sobre palafitas dos Alagados como “o povinho da invasão”, e onde “empregada tem que ser preta porquê se for branca é muito ousada” e isso era dito por pessoas que não eram brancas, acredite ni eu.
Uma Salvador na qual circulavam as Kombis da Sorveteria Primavera (foto) anunciando-se pelo sininho vendendo os preferidos Esquimó e Beijo e havia baleiros pelas ruas, alguns com cestos de palha que eram impressionantes milagres de força e equilíbrio, entupidos de bombons e chocolates e outros com tábuas furadas cheias de pirulitos em forma de cone (foto) feitos apenas de água e açúcar caramelizado que deviam ser verdadeiras usinas de produção de cáries. Sem contar que o papel aderia de tal modo ao pirulito que fatalmente as lambidas faziam a gente comer papel.

Uma Salvador na qual as compras para as casas eram feitas nas feiras livres ou nos “armazéns dos espanhóis”, que durante todo o tempo cheiravam a carne salgada e defumada, penduradas sobre as cabeças, apresentavam prateleiras fascinantes de caixas, garrafas e saquinhos coloridos e sempre tinham um gato dormindo sobre uma das sacas que expunham os produtos vendidos a granel. Depois de finalizada a “feira” era enviadas por carregadores até a casa da “freguesa” pois era sempre tarefa de mulher encarar o galego. Foram todos eles praticamente arrasados pela concorrência do novíssimo conceito: Sua Majestade O Supermercado.
Uma Salvador na qual havia a figura do “guarda noturno” que passava a noite soprando um apito pelo bairro, não sei se para acordar os moradores ou para espantar os gatunos, e não se sabia o que era arma branca ou arma de fogo. Arma era o que se improvisasse: pedaço de pau, pedra e cano de ferro. Quem tinha uma soqueira, como era chamado o soco inglês era famoso e automaticamente o líder da turma que ia brigar no “bairro dos outros”. Teve muita turma de bairro que ficou famosa por ser brigona.
Uma Salvador na qual poucos tinham aparelho de TV e era sempre uma aventura assisti-los. As imagens transmitidas pelo “Canal 5”, o único disponível, disputavam a tela com chuviscos, com imagens rolando para cima ou para baixo ou para um lado e para o outro de acordo com a válvula do aparelho que dava defeito. E viviam dando. E ainda assim em frente a esse festival de problemas visuais havia uma considerável e embasbacada plateia composta dos moradores da casa e dos seus vizinhos a iniciar a mudança radical dos costumes da cidade. Pioneiros.
Paramos por aqui embora só esse tema forneça material para uns 10 capítulos. Passou. Vamos agora conhecer o motivo deste escrito todo.

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