A fé move montanhas, o medo dá asas e o cagaço construiu igrejas. Parte 3.

Por: Uiu Robiso. Colunista de Relações Exteriores.

Voltando ao parágrafo inicial da 1a parte de tão interessante tema, calma, não é engano pois a frase inicial da 2a e 3a parte é a mesma mas só até aí, a história referente à Basílica e Santuário de Nosso Senhor do Bomfim, conhecida, divulgada e confirmada, diz que, entre os anos de 1740 e 1744, durante uma viagem de retorno do Brasil a Portugal o Capitão da Marinha Portuguesa Teodósio Rodrigues de Faria enfrentou uma forte tempestade no meio do Atlântico e, não deu outra, fez o voto de que, caso escapasse com vida traria para o Brasil as imagens de Nossa Senhora da Guia e do Nosso Senhor do Bomfim, de quem era devoto, e construiria uma igreja a ele dedicada.

O culto ao Senhor do Bonfim em Portugal teve início em 1669 na cidade de Setúbal, próximo a Lisboa, quando foi encontrada a imagem nas água, não há certeza se do Oceano ou do Rio Sara. Ao discutir-se o destino a ser dado à imagem falou-se em dar um “bom fim” a ela, o que levou a conexão com Nosso Senhor do Bonfim, venerado na tradição católica europeia como ligado a uma morte santa tranquila e em paz com Deus. Construiu-se uma capela para guarda da imagem e o culto de veneração a Jesus no momento da morte espalhou-se por Portugal.

Em 18 abril de 1745 o Capitão retornou a Salvador trazendo as imagens sendo a do Senhor do Bonfim esculpida em uma única peça de Pinho de Riga, madeira nobre também chamada de pinho nórdico ou pinheiro da Escócia, de cor clara e originária do Leste Europeu, onde se situa a cidade de Riga na Letônia. Seu nome científico é Pinus sylvestris e foi muito usada como lastro dos navios que vinham vazios ao Brasil para receber o Pau Brasil e aqui era descartada e aplicada como material de construção. Hoje é muito difícil ser encontrado na natureza devido à exploração sem controle ou limite.

As imagens foram abrigadas na Igreja da Penha, na extremidade norte da Península de Itapagipe no bairro da Ribeira e da qual poucos baianos conhecem a arquitetura única. As obras de construção da igreja prometida começaram quase que imediatamente após a chegada das imagens que, em 24 de junho de 1754, foram transportadas em procissão ao alto do Bonfim e entronizadas na nova igreja que teve a capela interna aberta aos fiéis. As obras continuaram até o ano de 1772 quando foram concluídas as torres frontais, liberado o acesso à nave principal e finalizados os trabalhos. Estava realizado o Ex-voto que deu à Salvador um dos seus símbolos mais conhecidos.

Lembram que no magnífico post Padaria Bar e Restaurante Reina de Oitavén é citada a Rua do Corpo Santo localizada no Comércio? Pois o nome desta rua é devido a uma igreja que é também um Ex-voto. Ela está lá, simples e bonita e é a Capela de São Pedro Gonçalves do Corpo Santo.

São Pedro Gonçalves ou São Pedro Gonzalez ou São Pedro Telmo ou apenas San Telmo foi uma marinheiro espanhol posteriormente ordenado sacerdote na Ordem dos Dominicanos onde destacou-se e ganhou fama como pregador. Nasceu em Frómista, Espanha, em 1190 e morreu em Tui, Espanha, em 14 de abril de 1246. Após a sua morte passou a ser venerado como protetor dos homens do mar, barqueiros, marinheiros e pescadores. Em Portugal é comumente citado apenas como Corpo Santo. Mesmo com a veneração e culto além de promessas e milagres a ele atribuídos, apenas em 1714, 500 anos após sua morte, foi canonizado, pelo Papa Bento XIV.

Como observação, existe um santo no catolicismo chamado Santo Elmo, ou Santo Erasmo (chamava-se Erasmo de Fórgia e foi martirizado no ano de 303 devido à sua fé) que é o padroeiro dos marinheiros. Por causa dele, e não de San Telmo o fenômeno físico que faz o ar ionizar-se e gerar luz azulada no topo de mastros de embarcações é chamado Fogo de Santelmo. Só não me pergunte o que diferencia um padroeiro de um protetor, aí vai da fé dos fiéis. Ficou confuso? Imagine ler estas informações no português ou espanhol praticado em 1700 em textos escritos à mão.

Mas o nosso marinheiro, chamava-se Pedro Gonçalves, portanto xará do protetor, era espanhol, devoto de São Pedro Gonçalves e ao ver-se à mercê dos elementos num travessia do Atlântico rumo ao Brasil, e os marinheiros do Pacífico, a quem recorriam na hora do aperto? Fez o que o manual mandava: prometeu uma igreja consagrada ao Santo caso escapasse da tempestade. Escapou. Estima-se que a capela foi construída em 1711 dando àquela região da Cidade Baixa o nome de Corpo Santo. O segundo templo que é um Ex-voto em Salvador, e que muitos poucos sabem sobre a sua origem.

Existem vários outros templos consagrados a São Pedro Gonçalves do Corpo Santo. Podem ser citados:

Igreja de São Frei Pedro Gonçalves. João Pessoa, Paraíba. Brasil. Construída em 1843 por doações de marinheiros e pescadores.

Igreja de São Frei Pedro Gonçalves. Recife. Pernambuco. Brasil. Construída no Século XVII e demolida no início do Século XX. Era a Matriz da Paróquia do Corpo Santo.

Igreja do Corpo Santo de Massarelos. Porto. Portugal. Erguida pela Confraria das Almas de Porto Santo de Massarelos. A confraria é um Ex-voto e foi criada em 1394 por maritmos que sobreviveram a uma forte tempestade ao retornar da Inglaterra para Portugal. A igreja foi erguida em 1776. A vista abaixo a mostra a perspectiva do passeio do Rio Douro e o painel de azulejos retrata São Pedro Gonçalves e o Infante D Henrique, membro da confraria.

Deixe um comentário