A fé move montanhas, o medo dá asas e o cagaço construiu igrejas. Parte 2.

Por: Kwai Chang Caine. Colunista de mitos baianos.

Voltando ao parágrafo inicial da 1a parte de tão interessante tema, tive um dia o entendimento de que a igreja onde eu costumava admirar os ex-votos era, ela também, um ex-voto. E é uma das histórias mais conhecidas do período de “fundação / colonização / expansão” da cidade de Salvador. Adiante vamos nos aprofundar nessa história que durante a primeira semana de janeiro é repetida ao menos 174 vezes ao dia nos programas jornalísticos ao citarem a Lavagem do Bonfim, que ocorre quase sempre na 2a quinta feira do mês.

A história desta igreja só perde em conhecimento popular para a divulgadíssima cascata de que o apelido de Caramuru deve-se ao fato de ele haver usado uma espingarda (sem nada a ver com as espingardas de hoje, era na verdade um arcabuz ou espingarda de mecha) e abatido uma ave o que encheu a “turba bárbara” (também conhecido como índios, nativos, negros da terra, selvagens, silvícolas, indígenas, bugres, Tupinambás/Tupiniquins/Tupinaés/Tupis e atualmente povos originários) de terror a ponto de ter sido chamado pelos apavorados, e pelados, índios de Caramuru que significa “Filho do fogo” ou “Homem do fogo”. E foi o único dos sobreviventes do naufrágio que não virou churrasco de canibal festeiro.

Meus livros de escola da História da Bahia (ainda se ensina?) traziam esta informação e tenho certeza de que respondi isso em muita prova no primário, chamado hoje de anos iniciais do fundamental, tendo sido aprovado por contar lorotas às professoras. Mereceu até um poema, chamado Caramuru e escrito em 1781 (o ano é prova evidente de que não fui eu usando um pseudônimo) por Frei Santa Rita Durão onde o episódio do tiro na ave é descrito de tal modo que dá até vontade de chorar ao ler. A expressão “turba bárbara” foi retirada dele. Abaixo a foto de um arcabuz, trambolho que pesava entre 4 e 5 kg e não acertava uma cerca a 50 metros dadas as deficiências balísticas que apresentava embora o alcance do projétil fosse muito maior, dizem que até 800 m, sabe lá Hefesto com que precisão:

A verdade sobre o nome tende a ser bem mais prosaica do que este mito. Diogo Álvares Correia foi realmente o único sobrevivente de um naufrágio ocorrido em 1509, próximo à barra da Baía de Todos os Santos, especula-se com base nos documentos da época haver sido um barco francês que traficava o pau-brasil extraído pelos “brasileiros” como eram nomeados aqueles, nativos e degredados, que viviam deste trabalho no nordeste. Ao dar em terra, nos rochedos onde hoje é o Rio Vermelho, nas encostas do antigo Hotel Le Meridien, enrolou-se em algas como proteção contra o frio e assim foi encontrado pelos Tupinanbás. Como parecia-se, por estar enrolado em algas marrons e verdes, com o peixe chamado Caramuru no idioma Tupi, foi chamado pelos nativos de Caramuru-Guassu que significa Caramuru Grande. Caramuru é a palavra Tupi que designa a Moreia, cujas espécies que mais ocorrem nas águas da Bahia são a Moreia Verde (Gymnothorax funebris) e a Moreia Pintada (Muraena helena).

Caramuru tinha realmente um arcabuz mas o usou foi contra os inimigos dos seus salvadores a ponto de receber do Morubixaba Taparica a filha deste, Paraguassu, como esposa. (Morubixaba é a palavra tupinambá para C.E.T., ou Chief Executive Tribe, variação indígena para o C.E.O. ou Chief Executive Office). Uma versão da história diz que foi Paraguassu quem impediu que Caramuru virasse o prato principal do dia quando foi encontrado. Mais tarde, durante viagem à França, Paraguassu adotou o nome da rainha francesa, Catharina, converteu-se ao catolicismo e retornando a Salvador distribuiu entre algumas ordens religiosas as terras que pertenciam ao seu povo. Abaixo um ex-voto exposto na Igreja da Graça com pintura mostrando a história de Caramuru conforme a versão do tiro na pobre da ave e da salvação do prato principal.

Algumas dessas ordens rezam, ainda hoje, diariamente uma Missa de Sufrágio para sua benfeitora. Seu túmulo está na Igreja e Abadia de Nossa Senhora da Graça que pertence à Ordem de São Bento e fica na atual Av Princesa Leopoldina no bairro da Graça, assim nomeado por causa do templo. Esta igreja foi construída no local de uma ermida criada por Catharina Paraguassu e Caramuru em 1535, após um sonho. Abaixo foto da lápide:

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