
Por. Louis LeBeau. Colunista de costumes de outrora.
Quando menino morava no bairro do Bomfim e uma das diversões preferidas era subir a ladeira e perambular pelo largo da igreja. Quando entrava no templo ia direto para a Sala dos Milagres que era uma salinha, + ou – 5 X 3 metros, onde ficavam pendurados no teto uma quantidade incrível de ex-votos na forma de parte do corpo humano construídas em cera, gesso e madeira: cabeças, braços, pernas, pés mãos e troncos. As paredes eram revestidas por quadros que mostravam situações de pessoas doentes. O que nunca soube, até crescer e entender que eram ex-votos e o que é um ex-voto além dos detalhes históricos do templo, é que a própria Igreja do Bonfim é um ex-voto. Mas, todo mundo pode definir e entender os ex-votos?


Ex-votos são oferendas feitas a deuses, santos, divindades ou entidades como agradecimento por haver sido alcançada uma graça implorada ou como pagamento por uma promessa feita. A palavra vem da expressão latina ex voto suscepto que pode ser traduzida como “por força de uma promessa realizada” ou “conforme o voto realizado“. É uma prática muito anterior ao catolicismo: Existem registros de práticas religiosas semelhantes na Grécia, Roma; Egito, Mesopotâmia, Índia, China, Japão, Tibete e várias nações africanas.
Pois então já viu né? Bastava Idomeneu, Grego, ver os Troianos vindo prá cima dele com gosto e sangue na boca que logo prometia a Zeus um touro virgem que nunca fora amarrado e seria banhado com óleo. Ou então Titus Valerius Magnus, Romano, ver o Vesúvio iniciar uma erupção do tipo explosivo com uma nuvem piroclástica descendo para onde ele estava que de pronto prometia a Vulcano um altar permanente no Atrium do seu Domus. Além do Arjun Gupta, Indiano, se ver cercado por um elefante com dor de marfim, uma tigresa recém parida e uma piton faminta de 6 m que prometia logo a Shiva manteiga, mel e iogurte em quantidades absurdas. E saindo vivos correriam para cumprir os seus ex-votos. E quanto maior o desespero mais dispendiosos eram os votos, vai que a divindade pensava como ele e atendia em função do valor da promessa.
E aí chegou o catolicismo, e com ele as nações europeias que se aventuravam pelo desconhecido que era o “mar oceano salgado”. E nestas aventuras em barcos, verdadeiros sinônimos de precariedade, descobriram quanto o homem pode se apequenar em relação às forças da natureza ao se verem frente a aterrorizantes procelas, tempestades, tormentas, borrascas ou como quer que sejam chamadas as situações onde os ventos e o mar se unem para dar fim à arrogância e altivez da raça “eleita” para dominar o planeta.
Nestes momentos de desespero a velha prática de prometer o que quer que fosse aos santos chegava, e “de com força”. Evidentemente quanto maior o medo maior a oferenda prometida. E o que seria maior do que uma igreja? E virou moda. Era só as ondas ficarem um pouquinho mais altas do que os mastros das caravelas, naus, brigues, bergantins e assemelhados que logo tinha alguém prometendo construir igreja se saísse daquela vivo. Existem algumas igrejas espalhadas mundo afora para comprovar isso. Aqueles fiéis não atendidos encontraram o mesmo destino que os barcos e deve haver os que, uma vez em terra, esqueciam o voto feito, compravam 3 velas das grandes e nem uma capelinha de palha construíam. Seguem alguns exemplos de igrejas construídas nesse contexto e as suas fotos:
Basílica de Nossa Senhora da Boa Saúde. Velankanni (Índia). Construída no final do Sec XVI pela tripulação de um barco mercante navegando de Macau (China) para Sri Lanka (Ceilão) que fez os votos ao orar fervorosamente para a Virgem Maria, durante uma tempestade descrita como catastrófica na Baía de Bengala. Nome original: Basilica of Our Lady of Good Health.

Capela de Nossa Senhora das Graças. Honfleur (França). Construída em 1023 por Robert o Magnífico, Duke da Normandia, após ficar “face a face” com a morte durante terrível tempestade (descrição histórica) na costa normanda e sobreviver por haver feito a promessa à Virgem Maria. Nome original : Notre-Dame de Grâce.

Igreja de Nossa Senhora das Rochas. Baía de Kotor (Montenegro). Esses nem precisaram se ver de frente com tempestades, devem ser os criadores do conceito de consórcio. Em 1452 dois marinheiros venezianos encontraram um ícone da Virgem Maria em um rochedo numa ilha, o que deu origem a um compromisso solene. Os marinheiros juraram que, após cada viagem bem-sucedida e enfrentada em meio a tempestades, caso ficassem vivos, construiriam parte de uma igreja de pedras. Nome original Church of Our Lady of the Rocks. “N.A. Um dos quadros mais bonitos de Da Vinci retrata esta madonna”.

Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. Nazaré (Portugal). Em 1182 o nobre Dom Diego Fuas Roupinho, alcaide mor de Porto de Mós, fazia uma caçada de veado e adentrou uma espessa bruma dirigindo-se para a borda de uma falésia com mais de 100 m de altura. Ao perceber que iria cair notou uma gruta próxima com a imagem de Nossa Senhora. Implorou ajuda à santa e o cavalo foi imobilizado na borda do penhasco. Como agradecimento construiu no local a Ermida da Memória que transformou-se posteriormente no santuário.

Acaba aqui a 1a parte sobre igrejas que são ex-votos. Na 2a parte serão detalhadas os templos deste tipo existentes em Salvador.

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