Matricule seu netinho.

Por: Julinho. Editor, Revisor, Ombudsman e Colunista Generalista.

Essa é de dezembro de 1998, quando estava certo dia em casa, de férias e sem dinheiro para um período de vilegiatura, aproveitando a folga para descansar, ler e consumir algumas vitualhas. No período da tarde a mulher estava no trabalho, a filha no curso de inglês ou na natação e em casa só os machos do grupo familiar, pela ordem de importância: Mobrau (felídeo, Felis catus, siamês, na época com uns 4 anos) e Eu (hominídeo, Homo sapiens, sem raça definida, na época com 39 anos).

Um pequeno “posâmbulo” é necessário nesse ponto para entendimento da situação a ser relatada. Assinávamos na época a revista Veja e como uma forma de incentivar a filha pré adolescente a ler havíamos colocado no seu nome a assinatura. A editora então lança uma revista, inserida na assinatura, destinada ao público infantil, chamada Veja Kid+. E divulgou na revista a seguinte chamada: “Sereia, assine a Veja Kid+ para seu filho“”. Quem batiza uma filha de Sereia? Eu.

A titular da assinatura atendeu ao apelo e, com a lógica típica da idade, não sendo mãe assinou a revista no nome do item mais próximo de filho que tinha, que era o gato. E foi assim que Mobrau Silva tornou-se assinante de uma revista com entrega específica, para a diversão dos porteiros e zeladores do prédio que faziam questão de entregar a “revista de Mobrau”.

MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização) foi um programa da ditadura militar destinado a substituir o Método de Alfabetização de Paulo Freire, usado na época, por associa-lo ao governo deposto de João Goulart. Durou de 1967 a 1985 e foi tão pouco eficaz que Mobral virou forma pejorativa de nominar pessoas com dificuldades de leitura e/ou escrita.

Em 1985 foi lançada pela TV Globo a novela Cara e Coroa cujo elenco tinha um personagem chamado Mobral, interpretado pelo ator Heitor Martinez. Fã que era do personagem a “tutora” (tou na moda viu?) do gato, também conhecida como minha filha, resolveu chama-lo de Mobral. Como eu não gostei da ideia de associar o pobre do felino a tão desditoso destino exigi que a grafia fosse alterada para Mobrau, afinal analfabeto que se preza é anaufabeto até o fin.

Posâmbulo feito retornemos à tarde de dezembro de 1998. O telefone toca e de agora em diante segue-se um diálogo onde as palavras em negrito e itálico são as recebidas e as em fonte normal são as minhas respostas:

Alô 
Boa tarde. É da residência de Mobrau Silva ?
É sim. Quer falar com ele?
Não. Na verdade com o responsável por ele. O senhor é o pai dele?
Não sou, estou mais para o avô.
Ah! Ótimo. Meu nome é José (Fictício) e falo em nome do Colégio XXX
Pois não. Pode falar.
Estamos em uma campanha de captação de alunos e gostaríamos de ter Mobrau estudando conosco. Qual a idade dele?
Quase 4 anos, eu acho.
Já está matriculado em algum colégio?
Não. Não está.
Está na idade ideal para começar. Gostaria de nos fazer uma visita e trazê-lo para conhecer o colégio?
Ele não gosta muito de sair. Acho que teríamos algum trabalho.
É tímido? Não há problema algum. Garanto que ficará à vontade aqui conosco.
Certo. Mas moramos no Garcia e o colégio fica na Pituba. O transporte seria um problema. Ele se assusta um pouco em ambientes com muita gente junta.
Temos alguns transportes escolares exclusivos de toda a confiança. São pessoas cuidadosas, atenciosas, e bem preparadas. E ele gosta de esportes?
Gosta muito, é bom em corrida, salto em distância e salto em altura.
Não é muito pequeno para isso não? Mas podemos avaliar e direcionar esses interesses, embora aos 5 anos as crianças geralmente prefiram outras coisas. Então, vamos conversar pessoalmente?
Sr José. Mobrau é um gato.
Tenho certeza que deve ser um bonito rapazinho, É normal os avós acharem sempre que o seu neto é um gatinho.
O senhor não entendeu. Mobrau É um gato, tem quatro patas, cauda, bigodes e faz miau.
LONGA PAUSA...
O senhor está brincando comigo. Ele não assina uma revista? (Sem que eu perguntasse confirmei a origem da informação do nome e contato embora já tivesse a certeza).
Assinante ele é. Mas gosta mesmo é de dormir sobre elas. Nunca tentou ao menos ver as figuras.
É um gato? Felino? Mesmo?
Acabou de passar em minha frente com a cauda levantada em direção à caixa de areia. Confirmei que é um gato.
Está certo, obrigado e desculpe o incômodo.

Desligado o telefone fui tratar do que fazia antes: Ler. Uns 20 minutos depois o telefone tocou novamente. Atendi e dessa vez a conversa foi mais curta:
Alô
Boa tarde, aqui é a Professora Maria do Colégio XXX. É o responsável por Mobrau Silva?
Sim.
Ele é um gato mesmo?

Desliguei sem responder.

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