Me indique um Algibebe que não seja careiro.

Por: Rebecca Boone. Colunista de Costumes e Toponímias.

A Cidade de Salvador tem um bairro que nasceu para, por sua localização à beira mar, suportar o desenvolvimento da cidade construída no alto da encosta dominante da paisagem onde situavam-se o casario de: morada, administração/clero e as atividades econômicas e de subsistência. Esta localização atendia ao preconizado pelo romano Marcos Vitrúvio Pólio em sua obra “De Architetura“, escrita em 27 A.C., e que definia o seguinte: “Na fundação de uma cidade, a primeira diligência será a eleição de uma paragem mais sã: o será elevada, livre de névoas e geadas; não exposta a aspectos calorosos nem frios, senão temperados“. Os termos são de uma tradução feita em Portugal.

Criada como uma Cidadela protegida por um Baluarte (inicialmente uma cerca de madeira e depois um muro de pedras) dotado de 2 portas (Portas do Carmo ao Norte, onde hoje fica o Pelourinho e Portas de São Bento ao Sul onde hoje fica a praça Castro Alves) que a isolavam e protegiam quando necessário, Salvador teve as suas ruas primordialmente nominadas com base nas atividades comerciais ou manufatureiras que nelas eram praticadas ou em função da profissão exercida nessas atividades. E ao expandir-se além da limitação inicialmente definida pelo baluarte esta tendência se manteve. Seguem alguns exemplos, mantida a grafia da época, de registros destas situações, com explicações relativas aos nomes quando necessário. Estão divididos em Freguezias (grafia da época), como eram denominadas as regiões abrangidas pelas Paróquias das igrejas católicas.

FREGUEZIA DA SÉ (Cidade Alta. A paróquia mais antiga da cidade. Igreja da Sé da Bahia, era catedral, daí a denominação de , finalizada em 1570 e demolida em 1933 junto com 2 quarteirões de casas construídas no início da cidade dando origem à atual Praça da Sé).
Rua dos Marchantes - Pessoas que, a pé, traziam gado das cercanias da cidade para os abatedouros. Ainda preserva o nome no Santo Antônio Além do Carmo.
Rua do Tijolo - Onde se concentravam as olarias e cantarias que forneciam o necessário para a construção da cidade. (Hoje chama-se Rua 28 de setembro).
Rua do Bacalhao - Vendas de peixes frescos e salgados. Também era chamada Ladeira do Bacalhao.
Rua dos Capitães - Rua próxima à Porta de São Bento, nela moravam os oficiais da tropa. (A partir de 1903 passou a se chamar Rua Ruy Barbosa).
Rua das Vassouras - Rua onde eram feitas e vendidas as vassouras de palha. Ainda preserva o nome.
Rua dos Mercadores - Principal rua da cidade recém construída. Hoje chama-se Rua Chile.
Baixa do Sapateiros. - Onde se agrupavam os que trabalhavam com artigos de couro e era situada nas margens de um rio onde existiram jacarés e sucuris de bom tamanho mas que com o passar do tempo a colonização da cidade transformou num ponto para descarte de dejetos. Virou a assim chamada vala da cidade, que hoje está transformada em via de tráfego e o rio canalizado para galerias subterrâneas até hoje correndo sob a rua. Não esqueça que um dia Ari Barroso encontrou lá a "morena mais frajola da Bahia".

FREGUEZIA DE SÃO PEDRO (Cidade Alta. Paróquia da Igreja de São Pedro Velho Extramuros, assim chamada por ser localizada onde hoje é a Praça da Piedade, portanto fora do baluarte da cidadela).
Rua dos Barbeiros - Onde ficavam os barbeiros e os praticantes da medicina.
Rua do Mocotó - Rua onde havia vendas de pratos preparados com vísceras e demais partes menores dos animais abatidos. (Hoje chama-se Rua do Paraíso).
Rua do Mingao - Onde se instalavam as "pretas de ganho" que vendiam, entre outras coisas, Mingau, Acaçá e Lelê.
Rua da Cabeça - Concentração de abatedouros que exibiam nas suas portas as cabeças das reses abatidas, fincadas em estacas ou arrumadas sobre o chão. Ainda preserva o nome, alterado para do cabeça, próximo ao Largo 2 de julho.
Rua dos Sete Pecados Mortaes - Nome justificado pela seguinte explicação, conforme encontrado em livro publicado em 1934: "Nesta rua existião em um dos lados SETE casas térreas, de porta e janela, habitadas por mulheres fadistas, e como os costumes da época erão outros e mui moralistas, em vistas das ações que se praticavam nas mencionadas sete casas assim se chamou a rua". Está entendido que UM pecado mortal era cometido, a Luxúria, e este era multiplicado pelo número de casas onde se abrigavam as ditas pecadoras. Imagine se ao invés de sete fossem 20 casas. O Vaticano ia se virar para definir outros 13 pecados.

FREGUEZIA DA CONCEIÇÃO (Cidade Baixa. Templo mais antigo da cidade, Tomé de Souza a iniciou como uma ermida em 1549, era o 1o contato com a fé que os navegantes tinham ao desembarcar na Baía de Todos os Santos)
Rua dos Ourives. Onde se reuniam os que trabalhavam com metais e pedras preciosos. Ainda preserva o nome.
Rua dos Algibebes. Será tratada adiante.
Rua das Louças. Reunia os que trabalhavam com vidrarias e porcelanas.
Beco do Mata Porco. Primeiro abatedouro da cidade. Localizava-se próximo à Ladeira da Conceição.
Beco dos Calafates. Situado próximo ao mar agrupava aqueles que trabalhavam na manutenção das embarcações de madeira. Ressalte-se que na Ribeira, no bairro de Itapagipe existiam estaleiros (Ribeiras das Naus) com estruturas mais adequadas a esses serviços. Hoje existe uma transversal da Av San Martin com esse nome.
Caes da Farinha. estrutura beira mar com escada e passeio onde eram desembarcadas as sacas de farinha produzidas no Recôncavo destinadas à exportação e consumo pela cidade. Sumiu durante o aterro da região em 1911.
Rua dos Curraes Velhos. Onde estruturas à beira mar abrigavam os animais de criação trazidos por mar. Desapareceu e outra rua foi batizada com o nome de Currais Velho posteriormente substituído pelo atual, Rua do Salete nos Barris.
Rua Guindaste dos Padres. Atividade econômica explorada pelos padres da Companhia de Jesus,  utilizando um guindaste dotado do sistema inercial de peso e contra peso que fazia subir mercadorias recebidas dos navios e necessárias na parte alta. Este guindaste foi o maior responsável pelo desenvolvimento da cidade pois eliminava tempo e gastos necessários para o transporte das mercadorias desembarcadas carregada por animais ou pessoas através das ladeiras e acessos existentes na abrupta e alta encosta. Ainda conserva o nome. No lugar do guindaste existe o Plano Inclinado Gonçalves.
Abaixo ilustração holandesa do Sec XVII retirada do post do Facebook (13/08/24) Salvador tem muitas histórias, do Professor Adson Brito do Velho.

O bairro citado na 1a linha desta postagem é o, criado desde os primórdios da fundação da Cidade da Bahia bairro de vocação puramente comercial criado ao nível do mar sendo o Porto da Cidade do Salvador porto este que foi por muito tempo o 2o mais movimentado das Américas, atrás apenas do de Nova York. É o Bairro do Comércio, imprensado entre o mar e a encosta de pedra garantidora da defesa da cidade. Neste bairro foram se aglomerando em ruas específicas as diversas atividades produtivas.

O Comércio passou em 1911 por uma ação de urbanização, através de aterro e a proposta era que fosse chamado de Bairro das Nações. Daí o nome de vários países encontrados nas ruas atuais. O bairro continuou Comércio e as ruas existentes pré aterro serviram para, ao longo do tempo, homenagear baianos ilustres o que substituiu os nomes relativos às atividades praticadas.. Poucas mantiveram os nomes originais. A Rua das Louças, como uma exemplo, teve o seu nome original modificado, não sei para Conselheiro Dantas ou Conselheiro Saraiva ou Conselheiro Lafayete, (quem recebia tanto conselho?), ou outro dentre os muitos ilustres que são homenageados naquela área hoje.

E os algibebes? Certamente reuniram-se na Rua dos Algibebes, e tantos eram que também ocuparam o Beco dos Algibebes (ambos existentes até hoje com o mesmo nome). Pode-se dizer que os algibebes mostraram-se mais fortes que as Nações Invasoras de Ruas e os Ilustres Esquecidos. Fossem um pouco mais numerosos e existiriam a Praça dos Algibebes, a Travessa dos Algibebes e por falta de uma ladeira próxima o Plano Inclinado seria o Plano Inclinado dos Algibebes. Recomendo que não perca tempo vá ao Comércio e percorra a Rua e o Beco. Se nunca foi à Bahia, então vá e vá aos sítios históricos / turísticos dos Algibebes (Percorra a pé aqueles sítios históricos e “ouça” na alma o murmúrio provocado pelos trabalhos dos antigos algibebes. Delicie-se depois com um maravilhoso sorvete na Ribeira, ali pertinho).

Mas o que é um algibebe? Segundo o dicionário, e não é qualquer dicionário que ainda traz este vocábulo, trata-se de “pessoa que faz e vende roupa feita de fazenda ordinária”. Segundo o saudoso historiador baiano Cid Teixeira nesta rua ficavam os que vendiam roupas usadas e coisas usadas. Acho que é o que se chama em francês Bric-à-brac que foi aportuguesado para bricabraque. Pessoalmente considero que algibebe tem muito mais charme. Mas finalizando, se souber de um bom algibebe que venda barato e funcione 24 horas me passa o contato dele no Zapp no Insta. Mas não me indique exploradores ou vendedores de “relíquia de pedaços da cruz”.

Village shops labeled “Loja S. José,” “OFICINA do ZÉ,” “ARRIOS DE COURO,” and “HARDWARE,” with four men seated outside.

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