
Por: Kwai Chang Caine. Colunista com nome mais esquisito impossível.
Existe todo tipo de esquisitice que os pais podem fazer tentando fazer com que os filhos se destaquem dos demais de algum modo. Porquê os próprios pais não fazem eles próprios, e com eles próprios, as tais esquisitices um dia a ciência especializada explicará. Existe o que decide que o filho de 7 anos asmático e míope e que quer um Conjunto do Pequeno Químico, deverá ser “o Neymar da copa de 2042” e obriga o pobre mesmo a contragosto a correr, suar, tomar pontapé, beliscão, dedo no óculos, cuspe e chute nos ovos nas absurdas “peneiras” dos times infantis de futebol . E existe a mãe que determina que a filha de 10 anos e que pede a coleção de Harry Potter para ler deve ganhar A Maleta de Maquiagem Infantil e ser aos 18 “Top Model” famosa ou Miss Brasil. Recomendo que assista ao excelente filme “Pequena Miss Sunshine”. E exemplos similares existem aos borbotões. Cada um preparando um futuro cliente para psicanalistas financeiramente realizados.

Era o caso do meu quase vizinho e amigo apelidado Tamô Noite Sem Lua. O “Noite sem Lua” foi escolhido por ele mesmo devido à cor da pele, e adotado normalmente por todos da turma. Já o Tamô era a redução do prenome. Artamologímbalus. Isso devido à duvidosa criatividade de um pai amalucado, neurótico de guerra (nos anos 50, logo no pós guerra era assim mas hoje é conhecido como TEPT Transtorno de Estresse Pós Traumático), havia lutado pela FEB na Itália. Ao ouvir o motor da geladeira fazer ruído, se enfiava debaixo da cama aos brados de “eles tão vindo”. E como na casa dele havia uma moderníssima geladeira americana, da marca Frigidaire, com um motor que pelo barulho parecia ter potência para movimentar um porta- aviões, então este drama esquisito ocorria algumas vezes ao dia na casa de Seo Fagundes como era chamado o ex soldado, na verdade mecânico de aviões.
Seo Fagundes recebia uma pensão pecuniária por ser ex “Pracinha” da gloriosa FEB (Força Expedicionária Brasileira) e haver lutado na Itália durante a 2ª Guerra Mundial. E para piorar a esquisita situação a renda da família era complementada por sua esposa D. Solange, com a venda de abafabancas uma vez que nos anos de infância do Tamô geladeira era artigo de grande luxo na realidade das famílias baianas e a abafabanca, o sumo da fruta batida e congelada em formas de fazer gelo, fazia grande sucesso entre a garotada, afinal quem não gostava de se lambuzar todo chupando uma abafabanca enquanto esta derretia na mão? Era o percussor do geladinho de hoje. Devido a isso a tal geladeira era aberta com frequência durante o dia obrigando o inocente, porém potente e barulhento motor, a trabalhar constantemente para manter a refrigeração e ao mesmo tempo meter o Seo Fagundes debaixo da cama aos berros.
Mas voltando aos nomes esquisitos Seo Fagundes achava que colocar nomes complicados nos filhos faria com que de alguma forma se destacassem da maioria, o que realmente acontecia, não sei é se os garotos apreciavam muito esse destaque de gosto duvidoso. Por isso além de Artamologímbalus, o mais velho, havia 3 outros: o segundo chamava-se Tetramorginóginis, a terceira a nascer foi batizada de Trinaherédis e o caçula, quando o pai se superou, chamava-se Thdgss que no dizer do criador de tão enviesada palavra pronunciava-se Thedigas.
D. Solange, mulher de senso prático indiscutível chamava os filhos de Tamô, Gininho, Trininha e Diguinho, sendo nisso acompanhada por quase todos no mundo, a ponto de Professora Lucila do Educandário São Vicente, situado na Baixa do Bomfim, que não admitia apelidos entre os alunos da sua escola, disciplinadora de força moral proverbial que era, um olhar seu sem qualquer palavra dita fazia qualquer aluno calar-se e abaixar a cabeça pondo as mãos atrás das costas, abrir exceção no caso dos irmãos Fagundes, senão a confusão na escola atingiria as orlas do caos no momento da saída quando os nomes dos alunos eram berrados à medida que em que os familiares chegavam para apanha-los. Era uma cena interessantíssima, quando os acompanhantes dos alunos chegavam, ver Pró Tânia ou Pró Neide a gritar de forma esganada para que pudessem ser ouvidas acima da gritaria da criançada, para dentro do pátio da escola e com a mão bloqueando a saída:
— “ROBERTO CARLOS QUÊ NÃO É CANTOR” — E lá vinha um pirralho de 6 anos fazendo barulho de motor de carro com a boca.
— “LUIZ ANTÔNIO E ANTÔNIO LUIZ” — Aí apareciam, às vezes correndo e às vezes rolando atracados pelo chão 2 irmãos gêmeos que eram o terror do Educandário.
— “LILIAN” — Surgia então uma loirinha bonitinha, pequenina e gorducha a arrastar atrás de si um acordeão maior do que ela.
Assim a escolinha devolvia ao mundo os alunos recebidos no início do turno e que um dia, segundo Professora Lucila:
— “Serão cidadãos, para isto estão sendo educados” — Aqui arrisco-me a atestar que o vaticínio da Pró carregava grande dose de acerto.
Foi dito que quase todos usavam os apelidos porque o pai, orgulhoso e cioso da importância da sua criativa atitude não abria mão de chamar os pobres dos filhos pelo nome de batismo em qualquer situação. Sendo Tamô o mais gaiato e arteiro dos quatro era inevitável que entre um mergulho sob a cama e outro a Travessa Travassos de Fora, nas cercanias da Rua do Céu e transversal da Rua Travassos de Fora, presenciasse Seo Fagundes de cinturão na mão a bradar na porta de casa:
— “ARTAMOLOGÍMBALUSSSSS”, dessa de agora você não escapa moleque safado” — Demorando de forma arrastada nos “esses” no fim do nome para realçar a importância da situação.


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