Anphilóphio. O suicida incompetente.

Por: Rebecca Boone. Colunista de Vida na Melhor Idade.

Essa é dos anos 70, do tempo que o Pronto Socorro da cidade ainda ficava na Av Araújo Pinho no Bairro do Canela e era possível andar sem sustos por todo o centro da cidade. Quase sempre.

Morava no segundo andar de um prédio no bairro do Garcia em Salvador. Sujeito tranquilo e educado. Casado com Dona Jurema, que chamava a atenção dos adolescentes do prédio, por entrar no elevador e ficar nos encarando fixamente. Ele falava com acentuado sotaque nordestino e Luiz, porteiro e fofoqueiro de plantão. nos disse que era da Paraíba, Alagoas ou Pernambuco, não tenho certeza de qual. Ambos aparentavam estar na casa dos 70 e poucos anos de idade.

Chegou ao prédio, através de Luiz, a informação da morte de Dona Jurema, sem qualquer detalhe adicional exceto o de que não havia sido no apartamento e sim em algum hospital. Após este evento Seu Anphilóphio passou alguns meses sem ser visto no prédio. Supunha-se estar na casa de algum parente ou ter ido passar um tempo em seu estado natal.

Certo dia, ao chegar da natação, encontrei-o sentado na sala conversando com minha mãe, com quem se dava muito bem. Fui chamado por ele para ouvir o que ia iniciar a contar e que anotei depois e guardei (na verdade perdi) por uns 50 anos e que ao ser revista (leia-se achada) vai aqui narrada:

O período que passou fora do prédio após a morte de Dona Jurema deveu-se ao fato de se sentir consumido pela culpa sentida pela morte. Não que houvesse sido provocada por ele, mas sentia-se responsável pela escolha do hospital ao qual a levara ao sentir-se mal, hospital este que, segundo ele nutria a certeza, não havia dado a devida atenção e o correto cuidado ao caso resultando isso na morte da companheira. Por isso passara um tempo a refletir e chegara à conclusão que devia morrer também.

Decidido que estava, vestiu-se certa tarde com uma camisa branca de mangas longas, calça branca, meias e sapatos também brancos e foi para o quarto onde dormia. Apanhou um revólver, que possuía guardado há cerca de 30 anos juntamente com a munição, deitou-se na cama apontou para a têmpora direita e disparou. Usando as palavras dele —”Ouvi um barulho imenso, senti uma pancada na cabeça, uma dor de cabeça absurda, um ardor de queimadura no rosto e um fedor de pólvora danado. Mas não morri”—. Não pensou 2 vezes, trocou o revólver de mão apontou para a outra têmpora e disparou —”De novo senti a pancada, a dor de cabeça aumentou ainda mais, o mesmo ardor de queimadura e o fedor de pólvora. Mas ainda não tinha morrido”—.

Após passar algum tempo deitado “esperando morrer”, levantou-se foi até cozinha, apanhou uma faca e retornou para a cama. Cortou ambos os pulsos —”A dor foi muito forte, começou a sair sangue e fiquei muito tonto. Certo que morreria deitei-me e adormeci. Ao acordar estava vivo e a tontura havia passado”—. Levantou-se e decidiu pelo 3o método de suicídio, pular da sacada do apartamento. Foi para a sala, abriu a porta, saiu para a varanda, olhou para baixo e refletiu:—”Eu tomei 2 tiros na cabeça, cortei os 2 pulsos e não morri. Pular de um 2o andar vai me fazer quebrar uma perna e ficar dando trabalho aos outros. Hoje não é meu dia, vou para o Pronto Socorro”—.

E foi para o Pronto Socorro, do jeito que estava, com a roupa branca ensopada de sangue pegou o elevador, Luiz ao vê-lo daquele jeito desmaiou, e Seu Anphilóphio foi caminhando do prédio até o Pronto Socorro, uma caminhada de 1 Km mais ou menos. Eram entre 5 e 6 da tarde e segundo ele descreveu foi uma correria danada das pessoas fugindo dele durante o caminho. Foi então que fiquei sabendo que a parte da saída dele e desmaio do amarelo e fofoqueiro porteiro eram de conhecimento de minha mãe, síndica do prédio e que proibiu Luiz de comentar com qualquer pessoa algo sobre o ocorrido.

Seu Anphilóphio, que ficou com os 2 projéteis do revólver encravados no crânio formando 2 saliências sob a pele ficou sendo conhecido por nós como Herman Monstro em alusão ao personagem da humorística série de TV Os Monstros. Herman tinha 2 saliências semelhantes só que no pescoço. Passou a viver ausentando-se do prédio com frequência e alguns anos depois chegou a notícia (o porteiro já era outro) da sua morte. E minha mãe, essa ainda era síndica, recebeu a visita de um dos filhos dele para tratar de algo referente ao apartamento. Como filhos? Filhos dele e da esposa, ainda viva, agora viúva e morando na Cidade Baixa onde Seu Anphilóphio ficara durante o período de dor pela perda da falecida. Duna Jurema era “a outra”.

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