
Por: Mister Ed. Colunista de Esportes Equestres e Carroças Puxadas por Burros
Chamava-se Prosperino Moura e Moura. Esse sobrenome vinha de um pai Moura casado com uma mãe também Moura, pura coincidência pois o pai nascera em Passa e Fica, divisa com a Paraíba no Agreste Potiguar e a mãe em Pau Grande, distrito de Magé na Baixada Fluminense. O rapaz tinha 3 apelidos, o primeiro vinha de casa, era chamado de Prospo; o segundo , devido a uma leve projeção do lábio superior sobre o inferior formando um bico, era Biquitão e o terceiro, por razões óbvias Mourão Dobrado, assim são conhecidas as estacas de cimento cuja parte superior têm uma leve curvatura. Mas não ligava e atendia pelos três sem qualquer drama. Sobre apelidos falaremos um dia desses.
Era Auxiliar de Carregamento no Porto de Salvador, não era Estivador pois não carregava/descarregava navios e sim os caminhões que faziam o transporte das cargas chegando ou saindo do porto, portanto filiado ao IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transporte e Carga). A sede deste sindicato ficava na Rua dos Algibebes, vamos falar dela mais tarde, pertinho do porto e era bastante visitada por Prosperino que pelejava para conseguir comprar um apartamento no Conjunto Habitacional construído para os filiados e que ficava, e fica até hoje, no Caminho de Areia em Itapagipe.
Na verdade tentava visitar o Sindicato mas quase nunca conseguia, não por sua culpa coitado, e sim do perverso e mal intencionado espanhol Lorenzo Pezudo, proprietário da Padaria Bar e Restaurante Reina de Oitaven, conceituado restaurante, bar e panificadora — Pão feito com banha de porco e não com óleo como esses outros por aí — como propalava o orgulhoso galego. Estabelecimento situado nas proximidades da parte baixa do Elevador Lacerda, cujas especialidades eram diversas bebidas tipo infusão feitas com as cachaças Saborosa ou Jacaré e os pastéis de sabores variados, de carne, frango, palmito, queijo, siri catado, moela, língua bovina, carne seca e o de maior saída: folha de taioba com camarão seco, todos eles receitas secretas da mãe do galego, Dona Tita, cozinheira de mão cheia e detentora de habilidades culinárias invejáveis.
Esses pastéis eram famosos, tendo marcado a infância e adolescência de muita gente na Liberdade e no Pero Vaz, e agora tinham freguesia certa e fiel dentre os frequentadores habituais da Praça Visconde de Cairu, na época fim de linha de ônibus da Cidade Baixa para toda a área de Itapagipe, uma vez que os subúrbios ainda eram atendidos apenas por trem e qualquer tentativa de viagem de carro até eles implicava em verdadeiras odisseias de horas por estradas dignas de serem usadas apenas por tropas de burros, dos competentes.
A própria Dona Tita trabalhava na feitura dos pastéis toda manhã auxiliada por uma meninota simpática e sempre disposta a ajudar chamada Miúda. Ainda hoje é como se a ouvisse falando com seu sotaque bastante forte para o filho Lorenzo Pezudo, cujo primeiro nome era José: — “Cé ! Chá cherviu o pastel do Chúlio?” —
As infusões com cachaça, ou folha podre, como eram popularmente conhecidas, usavam diversas ervas e as mais consumidas eram as de Erva Doce, Catuaba, Milome, Pau de Rato e a campeã absoluta de vendas, a de Pau de Resposta, entre muitas outras.
A Catuaba é feita de raízes e folhas de algumas árvores e é comprovadamente afrodisíaca, se não acredita pergunte ao meu compadre Vieira, freguês de presença sagrada no bar, ele te conta tudinho. Compadre Vieira ficou famoso na rua do Corpo Santo, bem pertinho da Padaria Bar e Restaurante Reina de Oitavén, onde deu muito trabalho às meninas da “Boate e Dancing Sayonara”, casa noturna afamada na Salvador dos anos 60 e 70 (garotas de Santos Corpos), depois que tomava umas três doses de catuaba todo fim de tarde ao sair da Agência Comércio do Banco de Fomento onde exercia a função de guarda livros chefe.
Ressalte-se que essa notoriedade sempre intrigou minha comadre, Dona Loura, uma vez que ao andarem pela região do Comércio a quantidade de pessoas que cumprimentavam meu compadre impressionava. Dia de Lavagem do Bomfim então, ocasião em que eles alugavam uma carroça para acompanhar o cortejo pois o compadre é devoto fervoroso, a gritaria feminina era enorme quando passavam na curva da Praça Visconde de Cairu. – “Eu faço o imposto de renda do pessoal”. – Era a explicação que ele dava todo sem graça para minha comadre, cada ano mais desconfiada.

Ressalte-se que, em nome do bem estar dos animais que as puxavam, as carroças foram proibidas na Lavagem do Bomfim. O mundo quer saber porque então não substituíram os Equinos, Asininos e Muares protegidos pela decisão por: Vereadores, Deputados, Senadores e Governadores? São também presença constante na Lavagem, não convidados, desesperados para aparecer e em termos de interesse e disposição em trabalhar para o bem do povo equiparam-se com pequena desvantagem aos que estariam substituindo. E são muito mais fáceis de serem enfeitados, com toda a certeza.
O Milome, que é como chamam o Cipó de Mil Homens tem várias atribuições medicinais devendo o seu nome ao fato do Dr Carlos Chagas, sanitarista do Rio de Janeiro, haver tratado mais de 1.000 operários amazonenses com esta planta durante um surto de malária nos anos de 1912 e 1913.
O Pau de Rato, também chamado Catingueira ou Catinga de Porco é uma árvore da caatinga nordestina e suas folhas têm propriedades digestivas famosas. A Erva Doce também possui propriedades que combatem problemas gástricos. Tudo isso me foi contado por Lorenzo Pezudo, industrial (por que não?) e comerciante cioso das suas responsabilidades, que estudava as folhas que colocava dentro das garrafas de cachaça ao fazer as infusões. Se não conhecia colocava do mesmo jeito e ia avaliando e anotando, pode-se dizer que era também um pesquisador, os efeitos após os fregueses beberem suas “folhas podres”.
O Pau de Resposta, esse é feito com a parte lenhosa de uma planta que tem o nome científico de Trichilia catigua e tem a fama entre os pinguços de possuir propriedades medicinais, principalmente as afrodisíacas. Desse aí Prosperino ingeria goles de tamanhos e quantidades olímpicos e inclusive afirmava sobre a bebida:
— “Cura de um tudo que o ser humano pode ter” — Se realmente curava não serei eu a afirmar, mas fazia com que o nariz de Mourão Dobrado ficasse cada vez mais vermelho e, sendo este nariz grande, comprido e redondo todo perfurado por espinhas antigas, dava a impressão constante de que o sujeito tinha uma batata doce roxa pregada à frente do rosto.
Além dessas havia infusões de folhas e raízes com plantas como a Quina-Quina, Cambuí, Quixaba, Fedegoso, Picão, Alumã, Tapete de Oxalá dentre outros. Para os mais audaciosos havia as infusões com cobras peçonhentas, dos mais variados tipos: Coral, Cascavel, Jararaca, Surucucu, Urutu etc… e até uma garrafa com um caranguejo dentro da cachaça, bebida que tinha a aparência de ser capaz de enviar o bebedor para outro mundo antes mesmo de chegar ao fim do copo.

Biquitão poderia ser isentado da culpa de nunca conseguir chegar ao sindicato porquê era dedicado e fidelíssimo apreciador dos pastéis e do Pau de Resposta vendidos a preços módicos por Lorenzo Pezudo, assim chamado por calçar sapatões monstruosos comprados em lojas que os recebiam e não conseguiam vender nunca devido ao seu tamanho avantajado, situação que possibilitava serem adquiridos com escandalosos descontos pelo econômico, sovina mesmo, galego que não se incomodava em andar com calçados às vezes 4 números maiores que o seu desde que isso lhe custasse pouco dinheiro.
Pois ao sair de casa na Lapinha, ou do trabalho na Cia de Docas do Estado da Bahia para ir ao Iapetec, Biquitão descia o Elevador Lacerda ou vinha dos armazéns e já passava na Padaria Bar e Restaurante Reina de Oitavén para “cumprimentar o Pezudo” não saindo enquanto não era expulso pelo mal humorado e grosso espanhol aos brados de: — “Cabrón. Te enfio mi pé em el culo, maricon de playa com abanico rojo” — E essa cena repetitiva, da ameaça com potencial certamente catastrófico para o atingido devido ao tamanho dos sapatos que guarneciam os pés em questão, acontecia sempre a ponto de virar folclore entre os frequentadores da região. Claro que disso nasceu uma amizade dessas de toda a vida afinal aquela postura do galego erra pura encenação que escondia uma coração de ouro e muito maior do que os sapatos que usava.
Demorou, mas Mourão Dobrado conseguiu um dia chegar ao sindicato onde foi muito auxiliado por “Seo” Oliva, escriturário dedicado (Um dia desses falamos dele). Conseguiu financiar um apartamento no térreo do Bloco XXI do Conjunto do Iapetec e vive por lá até hoje, já aposentado mas ainda recebe as visitas do Pezudo quando este viaja da Galícia, para onde retornou após vender o “estabelecimento”, a Salvador para matar a saudade e rever os parentes e amigos.


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