
Por: Flautista de Hamelin. Colunista convidado. Especialista em Temas Musicais Mágicos Ainda que Sombrios.
Violão. Meu primeiro contato com a arte de fazer música. Deraldo ia em casa 3 vezes por semana, vindo do Largo 2 de Julho até o Bomfim e se deparava comigo, um babaca muito chato, que reclamava que as cordas de aço machucavam meus dedos, mudamos para nylon. Ele deixava os exercícios que tinha de praticar para a próxima aula e nem no violão eu pegava, e o cara na maior paciência do mundo com um mala sem braços.
Em resumo, aprendi muito pouco, as músicas Vênus, Ana e Cândida e mais nada até que o pobre do rapaz jogou a toalha em relação à minha virtuose e disciplina. Mas sei toca-las até hoje, uns 50 e muitos anos depois. Nas últimas aulas ele tocava e eu olhava até que descobrimos a paixão mútua pelo futebol de botão e mesmo após o fim das aulas combinadas ficou indo lá para jogarmos. Mas o que eu ainda não sabia é que, para azar da Musa, eu era brasileiro e não desistia nunca. Muitos anos depois do violão veio a:
Gaita de boca. Ou Tremolo Harmônica. Já casado, com mulher, filha e gato resolvi que ia parar de apenas de ouvir e curtir Muddy Waters, Clarence “Gatemouth” Brown, John Lee Hooker, B. B. King, Brownie McGhee, Sonny Terry, Lightnin Hopkins e Robert Johnson. Ia adentrar o mundo do Blues com estilo. Já me via usando terno preto com chapéu de feltro e óculos escuro (de noite) solando na gaita I’m a Strange Here ou Chain Gang Blues num bar qualquer.
Conhecia a história das Musas e da Euterpe mas os verdadeiros “Bluesman” que optam por ajuda de outro plano além do terreno não ficam falando com branquelas usando túnica. Viajam para o interior do Mississipi, encontram uma encruzilhada e fazem um pacto com o diabo trocando a alma pelo habilidade em tocar blues. Além de não gostar da ideia de ir pro cu do mundo achar uma encruzilhada com o diabo me esperando, fiquei imaginando o demo rolando no pó de rir quando eu dissesse que o que eu queria tocar era gaita. A lenda é para guitarristas. Deixei a ideia pra lá. Sobre o tema recomendo muito os filmes A Encruzilhada (1986), Pecadores (2025) e o documentário O Diabo na Encruzilhada (2019).

Por isso fui até a livraria Civilização Brasileira, comprei um exemplar do Método para Gaita Diatônica de Luiz Marcondes para aprender a tocar minha gaita Hohner International com afinação em A. (O vendedor da Primavera Musical garantiu que era a ideal). E tome tentar tocar Oh Suzana, Campton Races, My Darling Clementine e Luar do Sertão. Foi então que descobri que havia um fenômeno se manifestando por duas formas: Na primeira o gato, Mobrau, desaparecia por completo quando eu começava a praticar. Na segunda a mulher e a filha que reclamavam porquê eu passava muito tempo no Manatee, um barquinho que tinha, começaram a “sugerir” que eu devia ir praticar a gaita no barco. Desconfiei que não era um gaitista tão bom e foi assim que acabou a tentativa da Harmônica. Tou olhando pra ela agora e acabei de soprar um pouco para susto da mulher. E então após a gaita veio a :
Flauta Doce. Comprei uma plástica “pra ver se levava jeito” antes de gastar muito e convenci Luciano, um colega de trabalho, a me ensinar. E tome coordenar sopro com respiração, com o pé batendo no chão para ditar o ritmo e não sair nada que se aproveitasse. Ele foi sensato, ao fim de uma semana comigo assassinando Asa Branca e Greensleeves. desistiu do encargo impossível e a flauta foi pro armário e tão bem guardada que faz uns 30 anos que não vejo. Um dia aparece.
A essa altura a minha Musa Inspiradora, a Euterpe (música e Instrumentos musicais lembra?) já devia ter se desesperado e fugido do Monte Helicon abdicando da obrigação de me inspirar. Acho que não contou ao pai porquê desde essa época ainda não fui atingido por nenhum raio. Correm boatos de que foi se bater pelos lados de uma praia no Sul da Bahia, esqueceu o Néctar e a Ambrosia e abriu a Pizzaria Musical dos Deuses, com um palco para música ao vivo e é conhecida como a Grega do Timbau. Casou com Zoinho, pescador de mergulho japonês que apareceu um dia lá e nunca mais foi embora. Ele só reclama que não tem pérolas no mar mas de resto a vida é boa. Por razões linguísticas ele chama a mulher de Glega, e ela se derrete toda com isso. Mas dando continuidade à saga veio o:
Pandeiro. Depois de muito refletir sobre minha imperícia, com certeza específica, para Violão, Gaita, e Flauta comecei a olhar mais para perto. E fiquei entre berimbau e pandeiro. Berimbau era legal mas a dificuldade em tirar diferentes notas de uma só corda me assustou um pouco. Fui então ao Mercado Modelo e tornei-me o feliz proprietário de um pandeiro, depois de condicionar a compra às lições dadas pelo vendedor. Coisa fácil, segundo ele. Em 3 “treinos” eu me tornaria um perito. Pela minha agenda só podia aos sábados e combinamos para o finalzinho da tarde.
Passei então a ir para o Mercado e após 4 sábados o Valmir, vendedor e professor, fez a sugestão, sem nenhum trato preparatório de chofre mesmo, de cancelar a venda e me devolver metade do dinheiro, a outra metade que ficaria seria para as aulas. Em consideração à boa vontade e como compensação pelo sofrimento causado deixei pra lá, afinal o valor não era nada significativo. Ganhei um amigo e toda vez que eu chego perto da barraca após isso ele vai logo avisando que os pandeiros estão todos vendidos, virou uma piada “interna”. Então veio o:
Banjo Country. Esse tá no armário ainda. Mas já comprei as dedeiras Dunlop e os jogos de cordas reservas (da marca Elixir como recomendado por meu amigo Pitta). Tou tomando coragem pra ter tempo. Certamente dessa vez eu arraso. Vou até queimar umas folhinhas de hortelã como invocação à Euterpe. Vai que ela ainda vê os pedidos de vez em quando e já esqueceu de mim.


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