Eu e a Euterpe. Segundo dia.

Por: Rebeca Boone. Colunista de Cultura & Arte.

Desde muito cedo gostei de música. Pude ter contato e conviver com todo tipo de música sempre procurando entender a história que determina os rumos que as “ondas musicais” tomam. Ganhei a primeira vitrola aos 8 anos, desde antes já curtia tudo que ouvia, e enquanto meus amigos queriam saber de jogar bola e andar de bicicleta por Itapagipe eu até tentava jogar, por ser perna de pau, e não tinha bicicleta então ouvia Noel Rosa, Ari Barroso, Lamartine Babo, Herivelto Martins, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e companhia. Também procurava onde ler sobre essa geração musical anterior. Claro que todo mundo me achava esquisito e engraçado. Na verdade muito mais esquisito do que engraçado.

Junte-se a isso o fato de haver a efervescência da Bossa Nova, do Tropicalísmo, do Iê-Iê-Iê com os Beatles provocando histeria mundial e do surgimento do que seria a MPB com os Festivais Internacionais da Canção Ou seja: gostar de música era consequência de vivenciar os anos 60 / 70, ao menos para alguns.

Por volta dos 09 anos, resolvi levar a relação com a arte a “outro nível”, já que gostava tanto, vivia a pesquisar sobre o tema, ritmos, estilos, características, origens, influências, nomes importantes etc… então era o momento de também fazer música, não compondo mas reproduzindo o que havia. Se na época soubesse da Musa não teria tido nenhum pudor em apelar para ela. Após atazanar minha mãe por alguns meses para ter um violão, eis que um dia ganho um Tranquilo Giannini no 5, abaixo uma foto do instrumento. Lindo, sonoro e…inútil, não sabia nada sobre como se tocava um violão. Foi então que fui salvo por um refrigerante.

Morávamos na Baixa do Bomfim, num prédio de esquina que tinha um lado voltado para o Abrigo do Bomfim, ponto de ônibus, e o outro voltado para a Rua Octávio Barreto onde havia um prédio que pertencia todo à mesma família, que era a dona da Fratelli Vita, produtora de refrigerantes, com destaque para o Guaraná inigualável, e cristais reputados como excelentes. O melhor presente de casamento da época era um conjunto de cristais Vitta, coisa fina e de alto luxo. A família também tinha um castelo, sim um Castelo de verdade, não um prostíbulo (entre 1950 e 1970 o melhor bordel de Salvador, chamado Meia-Três, na Ladeira da Montanha tinha o apelido de Castelo devido à sua arquitetura). O Castelo Vita localizava-se no bairro de Pirajá e era visível da rodovia de entrada/saída de Salvador. Segue a fotografia dele.

Um dia surgiu uma estória sobre um menino da nossa rua, como sempre foi Léo, ou Mário Maluco ou Boquinha ou Delano ou Gaspar ou Zé Formiga, o “quem” não era importante, o “fato” sim. Pois o sortudo menino havia pedido um copo d’água no andar térreo do prédio dos Vita e recebeu (inveje e estrebuche) uma garrafa do Guaraná Fratelli Vita, o sonho de consumo “alimentar” de toda a meninada do bairro, justiça seja feita, o danado do refrigerante era gostoso mesmo.

Começou então intensa peregrinação de meninos sedentos a pedir água no tal apartamento. E íamos um por cada vez porquê “se for tudo junto não vai ter guaraná para tanta gente”. O fato de nenhum de nós morar a mais de 100 m, alguns mesmo no prédio ao lado, e todos terem água em suas casas nunca foi sequer considerado. Imagino que a rotina da casa deve ter virado um inferno pois uma semana depois do genial plano posto em prática, alguém da família afetada visitou as casas de todos nós para uma conversa com as mães. Lembro que minha surra foi memorável e pior ainda: o sentimento por não haver conseguido ganhar o guaraná.

Um dia, entre o início da romaria e a surra, ouvira enquanto “aguardava minha vez” um rapaz chegar à porta e se apresentar como o professor de violão de alguém da casa. Com a bunda ainda doendo da surra fui até lá e após a empregada me dizer que “não ia dar água nenhuma” expliquei a razão da “visita” e pedi que encaminhassem o tal professor até minha casa que, por razões óbvias, não precisei dizer onde ficava.

Encaminharam. E foi assim que conheci o Professor Deraldo, gente boa até demais, e se iniciou a minha saga com a prática musical, para Desespero Olímpico da Musa Euterpe (DEME, guarde essa sigla) Minhas escusas pela textual mistura mitológica de Saga (Nórdica) com Olimpo (Grego) mas é tudo Mitologia. Será mesmo ?????

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