
Por: Uiu Robiso. Colunista de Viagens Espaciais.
1969. Um ano, como todos, de coisas incomuns e comuns demais. Entre as incomuns está o fato do Campeão Baiano de Futebol ter sido o Fluminense de Feira aliás, nome que sempre me intrigou. Porquê um Fluminense (definido no Aurélio entre as palavras Flúmen e Flumíneo como “natural ou habitante do estado do Rio de Janeiro“) de Feira de Santana? Provavelmente para combinar com a Rádio Carioca de Feira (“natural ou habitante da cidade do Rio de Janeiro” conforme Aurélio entre carió e cariocácea), mais esquisito ainda. Essa deve ter caído na real porquê em 1991 tornou-se Rádio Povo).
Coisa comum, entre alguns trilhões de outras, foi o Palmeiras haver sido o campeão do torneio nacional que se chamava Taça Roberto Gomes Pedrosa, nome de um ex goleiro do Botafogo, São Paulo e Seleção Brasileira na década de 1930. Chamava a atenção por se recusar a receber dinheiro para jogar futebol, podia ser inspiração para alguns políticos de hoje.
Outra coisa incomum, inédita e tecnologicamente admirável foi o fato da missão da Nasa, Apolo XI, haver colocado pela primeira vez um homem na superfície da Lua, fato que até hoje é considerado uma farsa pelos muitos céticos de plantão, mais ou menos como a teoria da Terra plana. E este fato, ocorrido dia 20 de julho, quando eu tinha 10 anos, deu origem ao quiproquó desta estória.
Nós morávamos no bairro de Nazaré, em Salvador, num prédio onde também morava a família de um primo de minha mãe, família com a qual convivi desde muito pequeno e 2 dos 3 filhos regulavam a idade com a minha. No sábado, 19 de julho, meu tio havia trazido da sua fazenda um carneiro para presentear um amigo e um vaqueiro para fazer um tratamento médico.
No domingo cedo montaram umas 10 pessoas na Picape C-10 do meu tio e fomos até Feira de Santana assistir ao jogo do Fluminense contra o Bahia. Viagem interessante onde eu e meu primo descobrimos coisas novas: uma delas era que com um jeitinho bem dado junto ao policial rodoviário não havia problema em viajar um bando de gente na caçamba da picape. Outra coisa foi que um jornal aberto sobre os joelhos do carona encobria 2 meninos que estavam “inflacionando” o número de passageiros permitido na cabine. O jogo terminou empatado e a viagem de retorno foi tranquila.
Chegamos em casa a tempo de assistir a transmissão do pouso do Módulo Lunar da Apolo XI no Mare Tranqullitatis ou Mar da Tranquilidade. O pouso ocorreu às 20:17 no horário de Brasília e foi transmitido aqui por volta das 22:00 h. Na sala estavam meus tios, 3 filhos e o vaqueiro. Eu havia ficado em minha casa e soube dos detalhes depois. A imagem em preto e branco mostrava o módulo, os astronautas “andando aos pulos” e a bandeira que não tremulava pela inexistência de ventos.
Em determinado momento o vaqueiro perguntou onde era aquilo e ao ser informado de que era na lua arregalou os olhos e perguntou: -“Na lua lá de riba?” O pessoal deu risada e confirmou. Ele levantou e foi para o quarto onde iria dormir falando sozinho: “Andar na lua”, “De que jeito foi prá lá?”, “Isso é arte do Dinhanho!” o que quer que seja o tal Dinhanho.

Quando eu me preparava para dormir tocaram a campainha e eram meus tios e os 2 primos mais velhos. Pediram minha ajuda para ir procurar o vaqueiro, pois este havia surtado, impressionado com a história do homem estar na lua e fugiu às 22:30 h para uma cidade onde nunca havia estado antes. Quando chegamos no térreo o porteiro informou o vaqueiro havia passado na garagem, desamarrado o carneiro e saído rampa afora levando o bicho.
O “grupo de busca”, incorporou o porteiro e dividiu-se em duplas direcionadas para as ruas próximas ao prédio. Eu e uma prima (10 e 9 anos) fomos para a praça/jardim que ficava ao lado do edifício e estava completamente deserta. No meio da praça parou uma “Moreninha” como eram chamados os Fuscas da Polícia Militar na época e 2 soldados desceram perguntando o que 2 crianças faziam na rua àquela hora.
Expliquei a situação e a busca ganhou mais 2 componentes e, pelo rádio, foi “recrutada” mais uma equipe. Em vão, o vaqueiro e o “pet” haviam sumido. Meia noite retornamos para o prédio e aconteceu uma reunião de buscadores frustrados e 2 policiais solidários. Nesse momento chega a equipe “recrutada” via rádio, trazendo o vaqueiro que havia sido encontrado na Praça da Piedade a uns 3 Km dali, andando sem rumo. O carneiro havia sumido, o vaqueiro não falava “coisa com coisa” ou melhor; só falava no homem da lua e não soube dizer que fim dera ao animal.
Fomos dormir e pela manhã o carneiro foi “resgatado”, por um dos porteiros do prédio, das mãos de um menino que encontrou o bicho amarrado ao portão da sua casa ao sair para as aulas e resolveu matricular o carneiro levando-o consigo para o colégio. Informou então que na rua dele ninguém havia dormido porquê o carneiro havia feito um berreiro danado ao balir sem parar durante a noite toda e as pessoas que não tinham visão do berrador ficaram todos dentro de casa achando que era uma alma penada.


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