Três Marias, um bocapiu, um custipiu e morreu Mestre Tiziu. Parte 2.

Por: John Boy Walton. Colunista de Coisas da Bahia. (“Boa noite Mary Ellen”)

Tá certo mas… e o mestre do título? Onde entra? Entra aqui e agora. Mestre Tsiu foi o mentor do famoso capoeirista baiano Jorjão Amansa Brabo (aguarde o livro sobre ele). E, baiano e morador do Loteamento Lanat que era, não abria mão de descer a Ladeira da Água Brusca e “fazer a feira” todo sábado de manhã cedinho sempre com a esposa, a meiga Maria Lindaura, conhecida por Cumade Linda, que explodia com o comedido e calmo mestre de capoeira por qualquer coisa, estivesse onde estivesse. Os feirantes e carregadores já a conheciam e meio que colocavam o Mestre numa redoma para protege-lo de eventuais destemperos da santinha amada, mãe de 9 filhos, numa escadinha que ia dos 26 aos 4 anos.

Pois no dia do sucedido, ao chegarem na feira, Cumade Linda percebeu que não havia o bocapiu para armazenar as vitualhas adquiridas. Então começou o dia “tirando dos cachorros e botando no marido” culpado, no entender dela, pelo esquecimento. Sem bocapiu ela não compraria coisa alguma, dizia que: -“Aquilo cabe de um tudo”. Um feirante amigo, Lindoval Borboleta, acalmou as coisas e informou ao Mestre que Seu Facínora, dono de barraca famosa, havia recebido um lote de bocapius, “cheirando como quê” naquela madrugada. Dona Linda mandou o mestre ir comprar um e retornar para ela que ficaria adiantando as compras.

O mestre não esperou falar de novo, aliviado das constantes cenas de esbregue e confusão. Bateu perna pela feira até o Cais de 10 Metros, perto do local onde os saveiros de feira, que traziam as mercadorias expostas vindas do Recôncavo e que abasteciam Salvador, atracavam. Comprou o bocapiu e, andando “sem rumo”, chegou na barraca/bar/restaurante de Maria de Nós Todos, cozinheira famosa que aos sábados começava às 5 da manhã a função de vender seus badofes: Feijoada, Mocotó, Xinxin de Bofe, Moqueca de Testículos de Boi, Fato de Boi Ensopado, Tripa Frita, Meninico de Carneiro, Gemada de Ovo de Pata e colesterol acima vai. Isso tudo acompanhado de Cachaça Saborosa com Guaraná Fratelli Vita ou Cerveja Antártica.

O mestre, freguês, amigo e, eventualmente, namorado da dona da barraca, “caiu matando” no prato fundo entulhado de Sarapatel de Porco com muita farinha, pimenta de cheiro e “acompanhando pra facilitar a descida” 4 doses de Saborosa com Gasosa de Pêra (Fratelli Vita). E repetiu. Satisfeito o bucho, puxou Maria pro lado da barraca e ficou fazendo uns “chamegos no cangote” da beldade que lhe alertava para não se entusiasmar porquê havia comido “coisa pesada”.

Neste momento passa pelo casal uma vizinha do mestre chamada Maria da Fé, solteira e que carregava o maldoso apelido de Maria Bate Coxa, colocado por desocupados que gostavam de aborrecer os outros. Há alguns anos havia se insinuado para o mestre que, somente por medo da esposa muito próxima, se fez de desentendido. Isso deixou a moça muito ressentida e, rancorosa que era, jurou se vingar. E viu nessa cena a oportunidade aguardada.

Esperou o mestre terminar o colóquio e o seguiu no retorno ao encontro da esposa. No caminho Mestre Tiziu parou na barraca do galego Lorenzo Pezudo onde completou a manhã com um Milome, dois Cambuís e um Pau de Resposta. Foi aí que Arriba Saia aproveitando a condição etílica do mestre surrupiou o bocapiu e levou ao bar de Maria com uma estória de que “o moço que estava aqui esqueceu” informando onde ele podia ser encontrado: -“lá perto da barraca de Lindoval Borboleta”. e foi embora. Maria então decidiu achar o amado para devolver o bocapiu “esquecido”.

E seguiram, por ruas paralelas rumo à barraca de Lindoval Borboleta: Mestre Tiziu, executando um zigue-zague perfeito e sem nem lembrar de bocapiu, Maria de Nós Todos com o furtado/esquecido bocapiu na mão e Maria da Fé ou Maria Bate Coxa para os mais íntimos, com “gosto de veneno na boca”. E dá-se o arremate.

Arremate. 1o Ato. Cumade Linda ao ver o mestre chegar trocando as pernas, olhos vermelhos, bafo de cachaça e sem bocapiu nem reparou nas manchas de batom no colarinho dele. Incorporou uma hipopótama raivosa e, ao mesmo tempo que desacatava o marido com todos os palavrões conhecidos, esquecidos e a inventar, com a mão direita segurava o colarinho e com a mão esquerda enchia o mestre de tabefes. Só não mordeu para não parar de xingar.

Arremate 2o Ato. Enquanto 3 ou 4 pessoas tentavam arrancar o mestre das “mandíbulas trituradoras” da hipopótama chegou Maria de Nós Todos e ao ver a cena correu para o meio do fuzuê e, milagre: ao ver o bocapiu na mão de uma desconhecida Cumade Linda parou a sessão de carinhos e foi entender como e porquê. Maria de Nós todos explicou então que o mestre havia deixado na barrAca de pimentas em frente ao bar dela e dito ao seu dono que iria para Lindoval, que por acaso era (um dos) ex-marido dela. Como sabia onde era ela levou para lá.

Arremate 3o Ato. E no meio da explicação, justo quando Cumade Lida ia se acalmando, chegou Maria Bate Coxa que foi logo dizendo: -“Vizinha, que é isso? tá de amizade com a namorada de Tiziu? Indagorinha mesmo tavam os dois atracados lá do lado da barraca dela. E ele saiu tão bêbado e animado que deixou o bocapiu no balcão”. Bastou para que a traída Cumade Linda agarrasse Maria de Nós Todos pelo pescoço e começasse a surra-la usando como arma um bodião azul enorme, peixe que havia pego onde o braço alcançou. E aí aconteceu o:

Arremate: Ato final. Mestre Tiziu, desmaiado, de cachaça ou de porrada nunca ficou explicado, acordou e viu a surra de bodião que a namorada (dele) levava da esposa (dele ) e olhando para ele e dando risada a vizinha (dele), a Bate Coxa. Meio zonzo levantou-se e ao fazê-lo apoiou-se no pescoço de uma penosa descuidada que ciscava por ali. Tentando fugir ouviu a ameaça: -“Se prepare Tiziu, quando chegar em casa vai ter bodião pra você também”. Frente a tal perspectiva Mestre Tiziu, acho eu para não morrer de peixada, baqueou e disparou um custipiu de pinote de proporções olímpicas, jamais igualado nessa feira, ou em outra, nem nos Mercados: Modelo, Sete Portas, Popular ou São Miguel (que são os lugares preferidos dos custipiuzados). E foi assim que um bocapiu viu-se no centro de uma tragédia. A galinha, que não foi largada. tornou-se de forma solidária vítima indireta do custipiu.

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