
Por: John Boy Walton. Colunista de Coisas da Bahia. (“Boa noite vovó”)
O/A amigo/irmão/amiga/irmã vai me permitir uma introdução explicativa para este arrazoado, uma vez que ele traz algumas palavras que são “das antigas” ou são aplicações regionalistas, portanto desconhecidas dos não baianos (tadinhos).
Comecemos pelo Bocapiu. Existe um ditado famoso sobre a conveniência de falar-se menos do que é possível: “Olho viu boca piu”. Significa que o fato de você saber não implica na necessidade de dizer que sabe. Porém o nosso bocapiu é um objeto, conhecido também como mocó. De acordo com o dicionário de Aurélio o vernáculo BOCAPIU é: “Cesta de palha de ouricuri usada para carregar compras nas feiras”. Ouricuri é uma palmeira, chamada também na Bahia de licuri, hoje tão escassa que eu penso que os bocapius que são encontrados por aí são de qualquer tipo de palha que se preste a este trançado. Mas, considerando a época em que o fato narrado se deu o bocapiu aqui retratado era P.O. (Puro de Origem), feito de ouricuri.
Chegasse na Feira de Água de Meninos e o que meu/minha amigo/irmão/amiga/irmã mais veria seriam os bocapius carregados de frutas, verduras, temperos, legumes, artigos para práticas religiosas, garrafas de cachaça e alguns ainda teriam uma galinha com o pescoço e cabeça prá fora, apreciando a paisagem sem desconfiar do seu futuro próximo e com certeza bastante limitado: Iria virar molho pardo ainda naquela manhã.
Hoje em dia, depois de setembro de 1964 quando a Grande Feira (como a denominou e usou como título do seu filme o baiano Roberto Pires em 1961) queimou, a Feira é a de São Joaquim perto de ounde a outra ficava, e anda o bocapiu a ser substituído por sacolas e sacos de plástico, bonitos, coloridos, inodoros, resistentes, impermeáveis e sem nem o mais mínimo charme que um bocapiu esbanja. E, além disso tem o cheiro de palha seca que só mesmo um bocapiu prá emanar.

Agora vamos falar do Custipiu. Isso é coisa que somente alguns baianos conseguem entender e muito poucos conseguem descrever, vou tentar atrever-me a fazê-lo, me perdoe se não concordar com a descrição, certamente por ser um um purista, daqueles que comem Acaçá de Coco, como sobremesa da Moqueca de Zoião com Aracanguira bebendo um Aluázinho bem refrescante.
O Custipiu ou Costipiu é uma forma de “passar mal”, seja o que for passar mal como é usado em Salvador. Médico nenhum vai relatar um Custipiu, pergunte a Dra Naia, Clínica Geral, dona da minha estima e admiração, dotada da mais elevada competência e oriunda de família árabe cujos bisavós se instalaram na região do Taboão, como a grande maioria dos seus conterrâneos que, de tão importantes, chegaram a merecer um livro só para eles, bem mais gabaritado do que este monte de ideia boba que eu estou empurrando nos amigos leitores aqui.
Mas os chegados ao acometido pelo “malpassamento” podem afirmar com certeza ser esta a forma da morte/desmaio da situação apresentada.
Segundo meu amigo Dortas, filósofo e mergulhador, o Custipiu nem sempre tem como consequência a morte do acometido, pode resultar em um simples desmaio ou incapacitação pela perda de forças momentânea. Mas em geral é mais citado naqueles casos fatais, sendo que pode ocorrer de duas formas, o Custipiu de Pinote e o Custipiu de Escorrego, muito relacionados com a personalidade dos morrentes. Aqueles que são mais expansivos e carentes da atenção alheia certamente optam pelo Custipiu de Pinote, dramático e escandaloso, enquanto que aqueles mais educados ou tímidos, que se mostram discretos e reservados , escolhem o Custipiu de Escorrego, comedido e silencioso.
No Custipiu de Pinote o acometido, seja por qual causa for: cobrança de dívida esquecida, derrota do time do coração para o rival, flagrante da mulher dele com a amante ou da amante dele com a mulher, chegada inesperada de sogra com muita bagagem, mulher perguntar “- Quem é Dorotéia?” (o custipiu nesse caso ocorre sem que o acometido sequer se lembre que não conhece nenhuma Dorotéia), enfim qualquer coisa que o pegue de surpresa e potencialize alguma enfermidade latente, tem a reação de: soltar um “valei-me meu Sr do Bomfim” em tom bem alto, fazer o corpo disparar como uma mola, ser projetado, de costas, com os olhos já fechados e os braços estirados ao longo do corpo contra uma parede, aliás a parede é sempre um componente fundamental em uma cena de Custitpiu, e da parede despenca ao chão sem mais aquela. Já bateu na parede morto.
Já no Custipiu de Escorrego o acometido, pelas mesmas causas já descritas, sente-se mal, qualquer que seja o sintoma, encosta-se à parede e vai deslizando por ela até o chão soltando pequenos “Ai meu Deus do céu”, “Alá que me valha”, “Buda que me ilumine”, “Me acode meu pai Oxalá”, “Bizéu Xanfrô que me salve” , “Astarte que me proteja” e “Odin o Caolho que vele por mim”, afinal nesse momento deve-se cercar de todos que lhe possam ser de alguma valia nesse plano ou em outro. E ao encostar no chão já está findo o seu ciclo.
O quê provoca o Custitpiu ao manifestar-se a causa? Qualquer coisa: infarto dente siso cariado, nó das tripas, unha encravada, rinite, raivas reprimidas ou recentes que afloram de forma brutal, gargalhadas e choros absurdamente fortes, crise de caspa aguda etc… O Custipiu não é a causa ou a enfermidade consequente em si, é a forma pela qual o acometido manifesta o problema. Existem aqueles, aliás a grande maioria, que não são dados a Custipius. Passam mal e discretamente curam-se ou findam-se sem a necessidade de tão dramática demonstração pública. Claro que é público, afinal: que graça teria um Custipiu caseiro e doméstico?


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