Aqui Jaz. Revisitado e explicado.

Por: Uiu Róbiso. Colunista de Literatura de Cordel

Esta sensível poesia já foi postada na Zebra Zarolha e está sendo replicada para que seja entendida a sua origem. E tem um tripé de respeito como base. Entendam que a 1a perna do tripé levou à poesia, mas a 2a e 3a perna aconteceram antes dela.

1a Perna. O Cinema. Sua influência é explícita. A 1a estrofe reproduz literalmente a fala de Quint (personagens de Robert Shaw) no filme Tubarão de 1975. A fala ocorre quando o seu barco, chamado Orca, zarpa para iniciar a caçada ao peixe. Ouvir a fala ao assistir o filme acendeu no meu não sei o quê a lembrança que remete à:

2a perna. A Música. Lembrei de imediato de uma música do fenomenal LP (tu é velho, já disse) Tropicália ou Panis et circences de 1968 e que tenho até hoje. Trata-se de Mamãe Coragem com letra de Torquato Neto e música de Caetano Veloso e que está na 4a faixa do lado B (Não entendeu? Recomendo meu curso online “Long Plays, Compactos e Agulhas, tempos que não voltam mais”), Leitor do O Suruku’ku tem 50% de desconto na matrícula se for feita hoje até 23:59 h. Use o Cupon PEÇONHENTO.

Cantada por Gal Costa a música traz na 6a estrofe as linhas “Peque um pano pra lavar, leia um romance / Leia Elzira a Morta Virgem, O Grande Industrial”. Gerou em mim, ao ouvir, uma dessas dúvidas que tiram o sono da humanidade: Quem era Elzira? Que Grande Industrial era esse? Não que eu, aos 9 anos, nos anos 60, soubesse o que é Virgem ou Industrial. E isso foi o grande motivador para que eu chegasse na:

3a Perna. A Literatura. por conta disso passei alguns anos infernizando parentes, vizinhos e professores a perguntar sobre Elzira a Morta Virgem. Sem resultado. Decididamente eu era um curioso cercado de ignorantes por todos os lados. Mas um dia, ao acompanhar minha mãe na visita a uma antiga professora eis que vejo sobre uma mesinha de centro o livro. Não tive a menor dúvida em pedir emprestado e ela, que se chamava Alzira (Quase !!!), emprestou com a maior boa vontade.

Tinha 89 páginas, era uma brochura de papel barato e impresso pela Editora Paulicéia em 1924. Não era de 1a tiragem, o lançamento foi em 1883, no Rio de Janeiro. Fazia parte de uma fase de livros sensacionalistas baratos populares do fim do século XIX e que tinha, entre outros, os títulos: “O trágico fim da desgraçada Sofia”, “A flor do martírio”, “A desgraça chorando por mais”, “As desgraças de Emília” e o famoso “O Aborto” que vendeu 5.000 exemplares em 15 dias. Custou Rs 600 (seiscentos réis). Como referência um chapéu, item essencial do vestuário da época, podia custar até Rs16$000 (dezesseis mil réis). Este empréstimo durou alguns anos até a devolução

Basicamente o livro narra a história de uma moça tuberculosa que amava Amâncio, mas os seus pais queriam que se casasse com o dr. Siqueira. Por isso ela não tomava os remédios do seu tratamento até que por fim morre.

Eis aí o conjunto de motivações que originaram a, de pé quebrado, poesia em quartetos que segue.

Aqui Jaz

                                  Aqui Jaz o corpo de Elizabete
Morreu com a idade de vinte e sete
Até morrer conservou a virgindade
Verdadeiro fenômeno para sua idade

Aqui Jaz o corpo de Eliane
Bem neste ponto, não se engane
Que morreu virgem aos vinte e oito
Sem nunca haver praticado o coito

Aqui Jaz o corpo da formosa Inês
Morreu com idade de vinte e seis
Conservou-se virgem até morrer
A nenhum homem quis conhecer

Aqui Jaz o corpo de Lia, e mais nenhum
Morreu com a idade de vinte e um
A virgindade sempre guardou
E para o túmulo a levou

Aqui Jaz o corpo de Leonora
Que teve o ofício de professora
Morreu com a idade de vinte e quatro
Como uma virgem de fino trato

Aqui Jaz o corpo de Agripina
Morreu aos vinte, quase menina
Quanto a ser virgem era convicta
Por isso afirmo, morreu invicta

Aqui jaz o corpo de Ana Luzia
Que morreu virgem num triste dia
Morreu com idade de vinte e dois
Vivia deixando para dar depois

Aqui Jaz o corpo da linda Helena
Que coisa horrível, foi de dar pena
Eu vou contar tudo pra vocês
Pois morreu virgem aos vinte e três

Aqui Jaz o corpo de Tatiana
Taxada foi de balzaquiana
A única que alcançou os trinta
Mas morreu virgem, vamos, não minta

Aqui jaz o corpo da irmã Maria
Que nunca foi da patifaria
Era crente vigem e não usava brinco
Morreu com a idade de vinte e cinco

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