
Por: Kwai Chang Caine. Colunista de Vida Saudável.
“Quem chega na Praça Cayru
E olha prá cima o que é que vê?
Vê o Elevador Lacerda
Que vive a subir e a descer”
Essa é a 1a estrofe da música Retratos da Bahia feita pelo sambista Riachão em 1940 e que foi um grande sucesso na voz dele e no LP (tu é velho mermo !!!) Trio Nordestino, do grupo do mesmo nome, de 1963 na sua formação original: Lindú na sanfona, Coroné na zabumba e Cobrinha no triângulo. Depois dessa houve umas 419 formações diferentes, mas esse primeiro foi realmente bom.
Hoje já não faz sentido pois a Praça Visconde de Cayru existe com outro nome: Praça Maria Felipa, heroína da Independência da Bahia, com um busto da homenageada. Não haver registro histórico de como Maria Felipa se parecia é mero detalhe, onde já se viu exigir veracidade quando o importante é fazer o povo (tratado como plebe ignara pelos governantes) crer que o busto retrata com fidelidade o rosto dela? Quem somos para criticar os desígnios dos que tomam tais decisões? Há em Salvador exemplos destas atitudes à “mão cheia”. Só não fazem como Castro Alves no poema O Livro e a América: “Oh! Bendito o que semeia. Livros… livros à mão cheia… E manda o povo pensar!” Para eles quanto menos a plebe ignara pensar melhor. “Vamos dar música (ruim) e festa grátis que eles gostam”.
Mas o descrito aqui acontecia na Praça Cayru da música de Riachão, de Cuíca de Santo Amaro, do fim de linha da Cidade Baixa, do Mercado Modelo, da Rampa do Mercado, do Bar Flor de Oitavén e da esquina com a Rua do Corpo Santo.
Nos anos 60, quando a Praça Cayru era tudo isso, a faceta “fim de linha” se destacava. Desorganizada, paradoxalmente eficiente, entulhada de Marinetes, Ônibus e das modernas “Lotações” que ligavam o Comércio às várias localidades da península de Itapagipe, Largo do Tanque, São Caetano e subúrbios.
O destaque era o grupo de ônibus elétricos ou “trolley bus” ou troleicarros, que operavam entre a Praça Cayru e a Baixa do Bomfim. Funcionavam conectados por duas hastes a uma fiação paralela específica que era como um trilho aéreo que definia o percurso a seguir. Num “post” futuro serão o assunto, aguarde.
E anualmente, no caos dessa praça, um ônibus muito antigo, de cor verde musgo era estacionado numa das extremidades e ali ficava entre a Festa da Conceição da Praia e a Lavagem do Bomfim. Na sua lateral era colocada uma faixa onde se lia: “O bicho que dá choque” e havia um desenho do que parecia ser uma cobra.

O interior era vazio exceto por um aquário onde havia um peixe. Um poraquê com cerca de 1 m de comprimento. O poraquê é uma enguia de água doce, que pode chegar a dois metros de comprimento e pesar vinte quilos. Tem capacidade de geração elétrica que varia de 300 volts a 0,5 Ampèr até cerca de 860 volts a 3 Ampères. Na língua Tupi “poraquê” significa “o que faz dormir”, devido aos choques provocados. Ocorre na Bacia Amazônica, rios do Mato Grosso, de Rondônia e quase toda América do Sul.
Dos peixes elétricos é o único, além da arraia marinha Treme-Treme, que usa a eletricidade para caça e defesa. os demais usam para orientação e comunicação. Para o ser humano o risco de morte é pequeno, embora exista, pois apesar da altíssima tensão da corrente, que é o componente do fluxo elétrico que afeta aos orgãos vitais, é baixa. Mas no choque recebido com o corpo imerso em água a resistência da pele torna-se baixa e as consequência podem ser graves. Existem relatos confirmados de morte de pessoas nesta situação. Vejam no linka abaixo uma cena muito rara. Um boto tucuxi mata um poraquê num rio de Rondônia, provavelmente reagindo após receber uma descarga pois não fazem parte da mesma cadeia alimentar.
Meu pai ia, com um grupo de colegas “da praça”, motoristas de taxi como ele, todos os anos visitar essa atração. E me levava! Desde os 4 anos de idade até pelo menos os 8 ou 9 fui lá, sempre à noite. Havia uma fila imensa para pagar o ingresso e depois entrar, fazia caracol. Detalhe, mulher não podia, sabe-se lá porquê, E como era festa de largo, e minha mãe nunca estava, durante a fila eu me entupia de tudo que é bobagem que vendiam: siriguela, taboca, umbu, abafabanca (antepassado do picolé, aguarde “post“), pastel de vento e ladeira abaixo vai.
Após entrar cada grupo de 6 ou 8 pessoas, isso eu apenas assistia, o “domador”, trajado como um domador de circo (acredite ni eu), fazia uma preleção sobre o peixe explicando origem e capacidade e depois provava o que dizia: inseria um fio elétrico no aquário com uma lâmpada elétrica na outra extremidade e cutucava o poraquê que, cutucado, fazia “acender uma lâmpada de 100 Velas“.
Então vinha o ápice. O domador pedia que todos os presentes dessem as mãos formando um semi-círculo entregava um fio sem capa a um dos que estavam na ponta da “corrente humana”, inseria a outra ponta no aquário e dizia que quem não tivesse coragem (na minha opinião seria juízo) podia sair da formação. Claro que o machismo não deixava isso acontecer. O poraquê era de novo cutucado e todos os “conectados” recebiam a descarga elétrica.
Presenciei as mais diversas reações nestes anos que vi a cena: pessoas perdiam o controle da bexiga, houve alguns que desmaiaram, uma vez um homem teve convulsões e, o único engraçado, um deles cuspiu a dentadura que foi se parar dentro do aquário, coitado do poraquê. Mas eram exceções. A maioria dava um pulinho com o susto do choque e se entreolhava dando risadinhas sem graça, sempre. Como criança eu não entendia aquelas risadas. Hoje acho que entendo.


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