
Por: John Boy Walton. Colunista de Escândalo do Momento “Boa noite papai”
Essa é mais uma estória que marca o “Folk Lore” de Salvador – Bahia.
As gerações soteropolitanas pós 1990, e provavelmente as pós 1970 e 1980, nem desconfiam que, ao frequentarem um conhecido restaurante japonês no Bairro da Graça, ou as farmácias da Av Euclydes da Cunha, ou visitarem algum amigo que mora naquele que já foi o bairro mais chic de Salvador, estão num local onde existiu o primeiro estádio de futebol da Bahia.
Chamava-se Estádio Arthur Morais e era conhecido como Campo da Graça. Inaugurado em 19/12/1928, cercado de casarões senhoriais, funcionou até o início da década de 1970 quando foi vendido às imobiliárias que transformaram o bairro naquilo que é hoje.
E porquê num bairro nobre como a Graça? Porque na sua origem o Foot ball era uma atividade praticada pela elite da sociedade. Muitos destes praticantes eram influenciados por períodos passados na Europa onde iam estudar e ao voltar traziam a novidade. O primeiro deles foi José Ferreira Júnior, apelidado de Zuza, que retornou da Inglaterra em 1901, onde estudara, para trabalhar no Bank of London em Salvador.
Neste período o esporte praticado em Salvador, também pela elite social, era o (também inglês) Cricket, jogado no local onde hoje fica o Campo Grande. Zuza, que trouxera uma bola de couro e um livro de regras também encadernado em couro (e o boi que se lascasse pois duvido que o couro usado tenha sido doação voluntária de um bovino) organizou a 1ª partida do novo esporte no Campo da Pólvora, grande praça que existia desde o início da construção de Salvador e foi escolhida pelo arquiteto Luiz Dias para instalar a Casa da Pólvora, paiol das forças portuguesas, porquê ficava distante do centro da cidadela inicial.
Como a citada elite habitava a região central da cidade os Clubs criados traziam às vezes no nome referências a esta região. Como exemplo o 1º Foot Ball Club a ser criado nascera em 1889 e chamava-se Club de Cricket Victória numa referência ao Corredor da Vitória nas cercanias da Graça. Ao adotar o futebol passou-se a chamar Esporte Clube Vitória.
O Campo da Graça foi o local oficial dos jogos de futebol em Salvador desde a sua inauguração até 28/01/1951, quando foi inaugurada a Fonte Nova. Daí até a sua demolição o Campo da Graça abrigou jogos, também do calendário oficial e muitos “Torneio Início” que marcavam a abertura de cada ano futebolístico. O primeiro jogo de futebol que assisti num estádio foi no Campo da Graça, disputado pelo auri negro Sport Club Ypiranga e pelo alvi rubro Botafogo Sport Club numa noite de 1967.
Nossa estória foi registrada em 01/01/1951 quando ocorreu o “amistoso festivo” entre Bahia, campeão baiano de 1950 e Payssandu, 3º colocado do campeonato paraense de 1950. O Clube do Remo havia sido o Campeão e a Tuna Luso Comercial o vice-campeão. Ressalte-se que o Bahia só levantou a taça e recebeu as faixas no recém-inaugurado Estádio Otávio Mangabeira, ou Fonte Nova, alguns dias depois.
O Bahia tinha um time considerado muito bom, a começar pelo goleiro Leça, citado até na canção Tradição do genial Gilberto Gil (“No tempo que Lessa era goleiro do Bahia. Um goleiro, uma garantia”). A sua escalação, com a terminologia futebolística da época, era a seguinte:
Goalkeeper – Leça
Back – Arnaldo
Center back – Zé Grilo
Quarterback – Pedrinho
Half direito – Ivon
Half esquerdo – Evilásio
Linha – Gereco, Alfredo, Toia e Isaltino
Center four – Carlito.
A escalação do Payssandu se perdeu, mas havia no time um jogador de 25 anos de idade, chamado Norman Percival Joseph Davies, cujo apelido era Cacetão devido à potência de seu chute, descrito como “uma verdadeira cacetada”!. É o terceiro maior artilheiro da história do clube, com 129 gols, e foi seu ídolo por muitos anos. Jogou também no Remo e na Tuna Luso por pequenos períodos. Nasceu em 1926 e faleceu em 2009.
Detalhe: no Bahia havia jogado um Fernando Cacetão entre 1942 e 1949. Mas o Cacetão da nossa estória é o Cacetão Paraense, Cacetão sabor Tucupi e Tacacá e não o Cacetão Baiano, Cacetão sabor Dendê e Vatapá..
O resultado do jogo foi empate por 1 a 1. Mas o que ficou registrado foi, no meio do 2º tempo, uma falta que o Center Four visitante, não por acaso o citado Cacetão, fez no baiano Evilásio. Falta forte que mandou o Half prá fora do campo. O juiz não titubeou. Expulsou o agressivo faltoso, acalmou os ânimos e levou o match até o final.
No dia seguinte, como foi por muito tempo costume entre as bancas de jornal da cidade, eram expostas as gazetas do dia para que aqueles que não podiam ou não queriam compra-las pudessem ler “as últimas”, estas notícias assim expostas provocavam às vezes manifestações, aglomerações e debates públicos. E uma dessas gazetas trazia a manchete: “AMISTOSO NO CAMPO DA GRAÇA. JUIZ BOTA O CACETÃO PRÁ FORA”.
Detalhe: Gazeta é o aportuguesamento do francês Gazete (Jornal), por conta disso o baiano chamou os jornais de gazetas até a década de 1970.


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