Tira a mão do peito ô sujeito

Por: Louis LeBeau. Colunista de Futebol de Várzea.

Aproveitando a Copa do Mundo trago um assunto para refletirmos, que vem me incomodando: as imagens dos “craques”, “heróis”, “semideuses”, “fenomenais”, “maravilhosos”, “arrepiantes”, “mágicos / bruxos / feiticeiros”, “geniais”, “ridículos”???, e “formidáveis” jogadores do “scratch canarinho”, que disputa a Copa do Mundo 2026 do “nobre esporte bretão” ou “jogo das multidões” ou “teatro de emoções” ou mais comumente futebol.

Ressalto que os termos entre aspas foram ouvidos e registrados por mim ao acompanhar 4 dos 5 jogos da seleção brasileira em transmissões de TV. Abdiquei do direito de admirar a fortíssima seleção haitiana.

Vamos ao incômodo. Não é por haver jogado mal, ganho apenas de times MUITO ruins e ser eliminada precocemente. Era esperado, bastando para isso apenas ver o histórico recente de resultados do “scratch”. Para negar e criar expectativas entre os torcedores era preciso nunca ter acompanhado futebol ou ter interesses financeiros, pessoais ou corporativos face a desempenho projetado, nada sei sobre isso, não me cabe afirmar ou querer julgar aqui.

O incômodo é por ver os “heróis” acompanharem a execução do Hino Nacional com a mão direita sobre o peito, assim como muitos torcedores e até algumas das crianças que acompanham os jogadores ao adentrar o campo.

Fui criança e adolescente durante a ditadura militar e não escapei das aulas de Educação Moral e Cívica. Tenho uma lembrança específica interessante, no 1o ano do curso técnico foi dada uma tarefa de recitar em sala o Hino Nacional. Dos 43 alunos (23 Josés, alguns Juracis, Júlios, Kátias, Leonéis, Lêdas, Lúcias, Lenaldos, Lenícios e Laucides) apenas 1 conseguiu faze-lo corretamente. Os demais, por nervosismo, esquecimento ou desleixo não conseguiram. Destaque para um dos Josés que recitou: “Ouviram do Ipiranga à terra desce“, e parou aí. O que foi interessante? O único que conseguiu foi um estrangeiro, um espanhol.

Mas, pela última vez, voltando ao incômodo é um fato que a postura correta para acompanhar o Hino é definida pela Constituição da República Federativa do Brasil e detalhada pela Lei 5.700/71, válida há pelo menos 54 anos. Seu texto original, em resumo define, sobre este aspecto, que: O ouvinte deve permanecer de pé, em silêncio e com a cabeça descoberta e os braços devem ficar estendidos ao longo do corpo.

E assim era praticado até aparecer no cenário político nacional um “clã” cujo chefe é eleito presidente da república. E como o tal “clâ” é fã e admirador de tudo o que é americano (Pateta, Ronald Macdonald, Bozo, Rednecks, Donald Trump e qualquer “Self made man” etc… Obs. Excluir desta relação conquistas científicas devido às pesquisas das Universidades) o chefe passou a copiar os jogadores dos filmes de baseball da sessão da tarde, os políticos americanos e os estudantes e atletas nos filmes em que ouviam hino com a mão no peito.

Para que não ficasse muto feio para ele ser exposto por isso, um deputado do Rio Grande do Sul tratou de apresentar às pressas, o Projeto de Lei 5053/2019 de 12/09/2019 (já eram 8 meses de mão no peito irregular) cujo Artigo 1 diz:

“Art. 1º Esta Lei altera a Lei nº 5.700, de 01 de setembro de 1971, que “Dispõe sobre a forma de apresentação dos Símbolos Nacionais, e dá outra providências”, permitindo a introdução da mão no peito nas cerimônias de hasteamento ou arriamento, nas ocasiões em que a Bandeira se apresentar em marcha ou cortejo, assim como durante a execução do hino nacional.”

Desconsideradas as barbaridades gramatical e biológica, afinal se a mão for introduzida no peito o introdutor morre, a Justificação exposta no Projeto é:

“A postura correta é simples, fica-se em pé, em posição de respeito, com os braços distendidos ao longo do corpo. Não se cruza os braços para trás ou para frente e não se coloca as mãos nos bolsos. Não é possível colocar a mão sobre o coração. Entretanto, essa conduta é recomendada em alguns países, como nos Estados Unidos.”

Era comum ouvir-se em Salvador nos anos 60 a frase “esse povo só aprende o que não presta” não querendo referir-se especificamente ao povo, mas a todos, inclusive eu que a ouvi muito em casa. Fazendo jus à frase os reprodutores de conduta alheia em saber porquê o fazem passaram a ouvir o Hino Nacional com a mão sobre o peito e como infelizmente jogadores de futebol são formadores de opinião passou-se a ver essa atitude frequentemente. Portanto, àqueles que insistem em colocar a mão no peito durante o hino e não se consideram americanos, fica o meu repúdio, ainda que isso não vá mudar em nada a sua vida. Mas meu incômodo passou, ficou a vergonha mas esta é só minha. E como pode ser visto na foto da seleção americana abaixo, da Copa 2026, nem eles colocaram a mão no peito.

Respostas

  1. Avatar de Moisés Lessa Bahia

    Fiquei muito no sol ouvindo e tentando cantar o Hino Nacional durante o ginásio e na nossa ETFBa.

    Curtir

  2. Avatar de MATHEUS E DAMASCENO

    Excelente informação, sinceramente, eu não sabia que existia uma posição descrita em lei de como ouvir o hino nacional.

    Curtir

Deixe um comentário